Apesar de uma dor de
cabeça insistente, Lua cumpriu a promessa e cavalgou com Sofia pela praia. A
garotinha adorou e logo sorria novamente. Para ela, no entanto, sorrir exigia
esforço.
Depois de um jantar
leve, um banho e algumas histórias, Sofia adormeceu e Lua ficou sozinha no
andar térreo, na biblioteca de Arthur. Tinha encontrado uma caixa na garagem,
com papéis e fotos antigas, e esperava encontrar uma foto do pai e da mãe
juntos para dar a Sofia. Tinha certeza de que isso daria à menina mais
segurança e conforto. Enroscada na poltrona de couro, com um copo de vinho a
seu lado, examinou as pilhas de fotos e papéis. Alguns eram muito velhos,
estavam grudados e estragados pela umidade. Então encontrou um envelope
plástico com recortes de jornal. Espalhando-os sobre a escrivaninha, pegou o
maior deles. A manchete dizia: Empresário Arthur Aguiar envolvido em acidente
de trem.
Havia a foto de um
carro, todo retorcido e ainda preso às ferragens dianteiras do trem. Ela podia
imaginar que pedaços do carro tinham sido cortados para tirá-lo de lá.
Então, leu o artigo
sobre o acidente. Uma mulher grávida tinha sofrido um ataque epilético e o
carro dela ficara preso nos trilhos. Arthur tentara tirar a mulher, mas as
pernas dela estavam presas, e não conseguiu. Testemunhas tinham relatado que
ele voltara ao próprio carro, e com ele tentara empurrar o carro da mulher,
para tirá-lo dos trilhos. Mas o tempo não fora suficiente para que escapasse. O
trem tinha batido na traseira do carro de Arthur com toda a força, e segundo as
testemunhas, ele fora arrastado por mais de um quilômetro, até ser atirado pela
janela.
As mãos de Lua
tremiam ao ler o artigo, que falava dos negócios de Arthur, dos prêmios que
recebera e das atividades filantrópicas que costumava realizar.
No fim da página
havia uma foto dele, incrivelmente bonito e atraente, de smoking, e ao lado, a
foto da maca na qual fora transportado para a ambulância. O lado esquerdo e a
cabeça estavam cobertos. O braço pendia, coberto de sangue, a na mão apenas era
visível o anel de sinete.
Lua pegou outro
artigo.Arthur Aguiar é gravemente ferido, dizia a manchete. Aguiar sai do
hospital, dizia outra. Cirurgiões plásticos dizem que os danos foram grandes
demais. Aguiar recusa-se a dar entrevistas. Havia outro artigo falando do
prêmio que recebera da cidade de Charleston, com a foto da mulher e do bebê que
ele salvara. Melanie recebera o prêmio por ele, e suas únicas palavras tinham
sido: A recuperação de meu marido será lenta e difícil. Ele não estava pensando
nas conseqüências ao salvar a Sra. Argyle, mas apesar dos ferimentos graves,
não está arrependido.
Mesmo no jornal, o
comentário de Melanie pareceu amargo para Lua. Olhando dentro da caixa,
encontrou a placa de metal. Pelo generoso ato de bravura, esquecendo da própria
segurança... a cidade de Charleston homenageia seu filho mais corajoso...
Um herói. Havia mais
prêmios e elogios nos outros recortes, e em nenhuma das ocasiões Arthur aparecera
para recebê-los.
Quem teria guardado
tudo aquilo? Nem por um segundo imaginou que Arthur o tivesse feito. Achava que
Micael era o responsável, já que Melanie o deixara, incapaz de viver com o
homem que vira quando as ataduras tinham sido retiradas.
Ela suspirou,
pensando que talvez não fosse bem assim. Talvez eles já estivessem enfrentando
uma crise conjugal e o acidente fora apenas o pretexto final para separá-los.
Mas tinha a sensação de que a atitude de Melanie o afetara tão
profundamente que por isso escolhera viver nas sombras. Lua imaginou como teria
sido a vida dele se a esposa o tivesse aceitado como era e permanecido a seu
lado. Ela deveria ter orgulho da coragem e generosidade do marido. Mas
preferira abandoná-lo.
Pondo de lado os
artigos, voltou à atenção para as fotos, tentando encontrar uma para Sofia. Por
fim, achou uma que mostrava Melanie e Arthur juntos, e ao fitar os olhos dele
na foto, viu Sofia. Será que o sorriso também era igual? Ela vira apenas parte
do rosto dele, naquele dia em que rachava lenha.
De repente, sentiu
que era observada.
— Isso é
assustador, Arthur. Pare, ou um dia desses vai acabar me apavorando de verdade,
e acabarei machucando você para me defender. Onde você está? — insistiu,
incapaz de vê-lo no escuro.
Aqui. — Ele acenou, e
ela o viu junto à armadura que ficava num canto. Era difícil dizer qual era o
homem e qual era a estrutura de metal.
— Prefere que eu
apague todas as luzes para poder se esconder melhor?
— Pelo jeito, hoje
você está ainda mais sarcástica.
— Bem, então não é
tão tolo quanto pensei.
— O que quer
dizer com isso?
— Que não vou
precisar lhe dizer mais uma vez como magoou Sofia.
Ele se mexeu, puxando
uma cadeira de espaldar alto para a sombra e sentando-se.
— Devia ter me
ajudado, Lua. Sabe que eu não queria magoá-la. — Um suspiro pesado ecoou na
sala, e Lua pôde sentir o sofrimento dele. — Parece que não consigo fazer nada
direito ultimamente.
— É porque
ainda não se acostumou com intrusos no seu santuário.
— Mas isso não me
impediu de magoar minha garotinha.
— Não foi de
propósito, eu sei. Mas quero que entenda...
— Está bem. Continue.
— Esta rotina
não está funcionando, e temos que pensar em outra coisa. Sofia vai perdoá-lo,
Arthur. Aliás, já perdoou.
— Um espelho, Lua...
Pelo amor de Deus. Lua piscou, surpresa.
— Oh, Arthur...
Eu não tinha pensado nisso.
Havia espelhos no
quarto dela, nos banheiros, mas em nenhum outro lugar.
— Era apenas algo que
estava aprendendo a fazer. E desejou dá-lo a você.
— Eu sei — disse ele,
a voz revelando arrependimento. — Tenho que compensá-la de algum modo.
— Sei que o
fará. — Mas não sabia como. — Li sobre o acidente — declarou, indicando com um
gesto os recortes.
— Não gosto que fique
mexendo nas minhas coisas — retrucou ele, tenso.
— Poderia ter
encontrado tudo na Internet, você sabe. Ele concordou, mas mesmo assim não
estava feliz por vê-la remexer o passado.
O que você fez foi um
ato generoso, cheio de coragem.
— Poderia ter matado
a nós dois — resmungou ele.
— Pelo
contrário. Sua ação rápida salvou vidas. Um ser humano por nascer e a mãe.
— Soube que ele
nasceu poucas horas depois do acidente.
— Viu a Sra. Argyle e
o filho?
— Não. — Ele
sacudiu a cabeça. — Os médicos disseram que ela foi ao hospital, mas Mel não permitiu
que entrasse. Mais tarde ela me escreveu. Deu ao filho o meu nome. — O menino
deve ser poucos meses mais velho do que Sofia — comentou, só então dando-se
conta disso.
— Melanie não
permitiu que ela agradecesse a você pessoalmente?
— Eu não estava com
disposição para receber elogios.
— Você ou Melanie?
— O quê?
O tom dele era
defensivo, e deixava claro que era melhor parar por ali. Mas Lua insistiu.
— Como se sentiu ao
acordar depois do acidente?
— Feliz por
estar vivo. Feliz por eles estarem vivos. Mas estava tão dopado pelos
sedativos, que mal me lembro das primeiras semanas.
Alguns momentos se
passaram. Lua bebericava o vinho, e Arthur continuava sentado no escuro. Ela
podia ver o contorno da cadeira, e o abajur na escrivaninha oferecia uma visão
parcial dele, da cintura para baixo, revelando a calça preta e o roupão. Estava
descalço, com os pés cruzados nos tornozelos. Pés perfeitos, pensou Lua, com um
sorriso.
— E como Melanie se
sentiu?
— Ela não falava a
respeito.
— Foi o que imaginei.
— O que
esperava? O marido dela foi esmagado por um trem para salvar outra mulher.
— Isso é o que ela
pensou, Arthur. Não precisa defendê-la. Você nem conhecia a mulher e teria
feito a mesma coisa se se tratasse de um homem. Seu gesto foi instintivo.
Melanie não se conformou por você ter arriscado sua vida. E mais ainda quando
viu as conseqüências.
Houve uma longa
pausa, e então ele falou:
— Tem razão. — As
palavras foram acompanhadas por um longo suspiro. — Lembro-me de que perguntou
como pude fazer aquilo com ela... conosco. Foi então que a fiquei conhecendo
realmente. Ela começou a trazer os melhores cirurgiões do país, pedindo uma
opinião após a outra, sem obter a resposta que esperava.
— E qual era?
— Que meu rosto
voltasse a ser como antes.
O egoísmo de Melanie
tinha se revelado nessa única frase, e Lua sentiu o coração apertar-se ao
imaginar a dor de Arthur.
— E então ela quis se
separar?
— Não — continuou
ele, num tom amargo. — Ainda Ficamos mais algum tempo juntos. Quero dizer, não
exatamente juntos... Ela dormia no quarto de hóspedes, com a desculpa de que
não queria bater nos meus ferimentos durante a noite.
Os sinais da gravidez
já deviam estar aparecendo, e ela queria escondê-los, pensou Lua.
— E não deixou que a
tocasse, não é?
Ele estava quieto,
imóvel, e ela podia sentir a dor e a humilhação.
— Não. Mas não posso
culpá-la. Não depois de ver minha imagem no espelho.
— Mas eu posso.
— Como?
— Se ela o amasse de
verdade, não teria se importado.
— Eu não era
exatamente o príncipe encantado.
— E daí? Agora
também não é. Ele riu, baixinho.
— Essa sua franqueza
eu adoro.
A última palavra fez
Lua estremecer.
— Continue, sei
que não acabou.
— Você estava
sofrendo, se recuperando de um trauma terrível. Eu li os artigos. — A voz dela
não escondia a raiva da mulher que o abandonara num momento tão difícil. —
Ficou semanas no hospital, enfrentou tratamentos prolongados, fisioterapia.
Pelo que sofreu, tem sorte de estar vivo. — O osso da coxa fora substituído por
uma placa de metal, o quadril esquerdo estilhaçado, assim como todo o lado
esquerdo do corpo. O ombro tinha sido esmagado, e havia pinos de metal no braço,
nos dedos e nas costelas. — Sua determinação para curar-se foi admirável.

























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