quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

A Bela e a Fera (Capítulo 12)





Apesar de uma dor de cabeça insistente, Lua cumpriu a promessa e cavalgou com Sofia pela praia. A garotinha adorou e logo sorria novamente. Para ela, no entanto, sorrir exigia esforço.


Depois de um jantar leve, um banho e algumas histórias, Sofia adormeceu e Lua ficou sozinha no andar térreo, na biblioteca de Arthur. Tinha encontrado uma caixa na garagem, com papéis e fotos antigas, e esperava encontrar uma foto do pai e da mãe juntos para dar a Sofia. Tinha certeza de que isso daria à menina mais segurança e conforto. Enroscada na poltrona de couro, com um copo de vinho a seu lado, examinou as pilhas de fotos e papéis. Alguns eram muito velhos, estavam grudados e estragados pela umidade. Então encontrou um envelope plástico com recortes de jornal. Espalhando-os sobre a escrivaninha, pegou o maior deles. A manchete dizia: Empresário Arthur Aguiar envolvido em acidente de trem.


Havia a foto de um carro, todo retorcido e ainda preso às ferragens dianteiras do trem. Ela podia imaginar que pedaços do carro tinham sido cortados para tirá-lo de lá.


Então, leu o artigo sobre o acidente. Uma mulher grávida tinha sofrido um ataque epilético e o carro dela ficara preso nos trilhos. Arthur tentara tirar a mulher, mas as pernas dela estavam presas, e não conseguiu. Testemunhas tinham relatado que ele voltara ao próprio carro, e com ele tentara empurrar o carro da mulher, para tirá-lo dos trilhos. Mas o tempo não fora suficiente para que escapasse. O trem tinha batido na traseira do carro de Arthur com toda a força, e segundo as testemunhas, ele fora arrastado por mais de um quilômetro, até ser atirado pela janela.


As mãos de Lua tremiam ao ler o artigo, que falava dos negócios de Arthur, dos prêmios que recebera e das atividades filantrópicas que costumava realizar.


No fim da página havia uma foto dele, incrivelmente bonito e atraente, de smoking, e ao lado, a foto da maca na qual fora transportado para a ambulância. O lado esquerdo e a cabeça estavam cobertos. O braço pendia, coberto de sangue, a na mão apenas era visível o anel de sinete.

Lua pegou outro artigo.Arthur Aguiar é gravemente ferido, dizia a manchete. Aguiar sai do hospital, dizia outra. Cirurgiões plásticos dizem que os danos foram grandes demais. Aguiar recusa-se a dar entrevistas. Havia outro artigo falando do prêmio que recebera da cidade de Charleston, com a foto da mulher e do bebê que ele salvara. Melanie recebera o prêmio por ele, e suas únicas palavras tinham sido: A recuperação de meu marido será lenta e difícil. Ele não estava pensando nas conseqüências ao salvar a Sra. Argyle, mas apesar dos ferimentos graves, não está arrependido.


Mesmo no jornal, o comentário de Melanie pareceu amargo para Lua. Olhando dentro da caixa, encontrou a placa de metal. Pelo generoso ato de bravura, esquecendo da própria segurança... a cidade de Charleston homenageia seu filho mais corajoso...


Um herói. Havia mais prêmios e elogios nos outros recortes, e em nenhuma das ocasiões Arthur aparecera para recebê-los.


Quem teria guardado tudo aquilo? Nem por um segundo imaginou que Arthur o tivesse feito. Achava que Micael era o responsável, já que Melanie o deixara, incapaz de viver com o homem que vira quando as ataduras tinham sido retiradas.


Ela suspirou, pensando que talvez não fosse bem assim. Talvez eles já estivessem enfrentando uma crise conjugal e o acidente fora apenas o pretexto final para separá-los. Mas tinha a sensação de que a atitude de Melanie  o afetara tão profundamente que por isso escolhera viver nas sombras. Lua imaginou como teria sido a vida dele se a esposa o tivesse aceitado como era e permanecido a seu lado. Ela deveria ter orgulho da coragem e generosidade do marido. Mas preferira abandoná-lo.


Pondo de lado os artigos, voltou à atenção para as fotos, tentando encontrar uma para Sofia. Por fim, achou uma que mostrava Melanie e Arthur juntos, e ao fitar os olhos dele na foto, viu Sofia. Será que o sorriso também era igual? Ela vira apenas parte do rosto dele, naquele dia em que rachava lenha.


De repente, sentiu que era observada.


—  Isso é assustador, Arthur. Pare, ou um dia desses vai acabar me apavorando de verdade, e acabarei machucando você para me defender. Onde você está? — insistiu, incapaz de vê-lo no escuro.

Aqui. — Ele acenou, e ela o viu junto à armadura que ficava num canto. Era difícil dizer qual era o homem e qual era a estrutura de metal.
— Prefere que eu apague todas as luzes para poder se esconder melhor?


— Pelo jeito, hoje você está ainda mais sarcástica.


— Bem, então não é tão tolo quanto pensei.


—  O que quer dizer com isso?


—  Que não vou precisar lhe dizer mais uma vez como magoou Sofia.


Ele se mexeu, puxando uma cadeira de espaldar alto para a sombra e sentando-se.


—  Devia ter me ajudado, Lua. Sabe que eu não queria magoá-la. — Um suspiro pesado ecoou na sala, e Lua pôde sentir o sofrimento dele. — Parece que não consigo fazer nada direito ultimamente.


—  É porque ainda não se acostumou com intrusos no seu santuário.


— Mas isso não me impediu de magoar minha garotinha.


—  Não foi de propósito, eu sei. Mas quero que entenda...


— Está bem. Continue.


—  Esta rotina não está funcionando, e temos que pensar em outra coisa. Sofia vai perdoá-lo, Arthur. Aliás, já perdoou.


— Um espelho, Lua... Pelo amor de Deus. Lua piscou, surpresa.


—  Oh, Arthur... Eu não tinha pensado nisso.


Havia espelhos no quarto dela, nos banheiros, mas em nenhum outro lugar.


— Era apenas algo que estava aprendendo a fazer. E desejou dá-lo a você.


— Eu sei — disse ele, a voz revelando arrependimento. — Tenho que compensá-la de algum modo.


—  Sei que o fará. — Mas não sabia como. — Li sobre o acidente — declarou, indicando com um gesto os recortes.


— Não gosto que fique mexendo nas minhas coisas — retrucou ele, tenso.


— Poderia ter encontrado tudo na Internet, você sabe. Ele concordou, mas mesmo assim não estava feliz por vê-la remexer o passado.

O que você fez foi um ato generoso, cheio de coragem.
— Poderia ter matado a nós dois — resmungou ele.


—  Pelo contrário. Sua ação rápida salvou vidas. Um ser humano por nascer e a mãe.


—  Soube que ele nasceu poucas horas depois do acidente.


— Viu a Sra. Argyle e o filho?


—  Não. — Ele sacudiu a cabeça. — Os médicos disseram que ela foi ao hospital, mas Mel não permitiu que entrasse. Mais tarde ela me escreveu. Deu ao filho o meu nome. — O menino deve ser poucos meses mais velho do que Sofia — comentou, só então dando-se conta disso.


—  Melanie não permitiu que ela agradecesse a você pessoalmente?


— Eu não estava com disposição para receber elogios.


— Você ou Melanie?


— O quê?


O tom dele era defensivo, e deixava claro que era melhor parar por ali. Mas Lua insistiu.


— Como se sentiu ao acordar depois do acidente?


—  Feliz por estar vivo. Feliz por eles estarem vivos. Mas estava tão dopado pelos sedativos, que mal me lembro das primeiras semanas.


Alguns momentos se passaram. Lua bebericava o vinho, e Arthur continuava sentado no escuro. Ela podia ver o contorno da cadeira, e o abajur na escrivaninha oferecia uma visão parcial dele, da cintura para baixo, revelando a calça preta e o roupão. Estava descalço, com os pés cruzados nos tornozelos. Pés perfeitos, pensou Lua, com um sorriso.


— E como Melanie se sentiu?


— Ela não falava a respeito.


— Foi o que imaginei.


—  O que esperava? O marido dela foi esmagado por um trem para salvar outra mulher.


— Isso é o que ela pensou, Arthur. Não precisa defendê-la. Você nem conhecia a mulher e teria feito a mesma coisa se se tratasse de um homem. Seu gesto foi instintivo. Melanie não se conformou por você ter arriscado sua vida. E mais ainda quando viu as conseqüências.

Houve uma longa pausa, e então ele falou:


— Tem razão. — As palavras foram acompanhadas por um longo suspiro. — Lembro-me de que perguntou como pude fazer aquilo com ela... conosco. Foi então que a fiquei conhecendo realmente. Ela começou a trazer os melhores cirurgiões do país, pedindo uma opinião após a outra, sem obter a resposta que esperava.


— E qual era?


—  Que meu rosto voltasse a ser como antes.


O egoísmo de Melanie tinha se revelado nessa única frase, e Lua sentiu o coração apertar-se ao imaginar a dor de Arthur.


— E então ela quis se separar?


— Não — continuou ele, num tom amargo. — Ainda Ficamos mais algum tempo juntos. Quero dizer, não exatamente juntos... Ela dormia no quarto de hóspedes, com a desculpa de que não queria bater nos meus ferimentos durante a noite.


Os sinais da gravidez já deviam estar aparecendo, e ela queria escondê-los, pensou Lua.


— E não deixou que a tocasse, não é?


Ele estava quieto, imóvel, e ela podia sentir a dor e a humilhação.


— Não. Mas não posso culpá-la. Não depois de ver minha imagem no espelho.


— Mas eu posso.


—  Como?


— Se ela o amasse de verdade, não teria se importado.


—  Eu não era exatamente o príncipe encantado.


—  E daí? Agora também não é. Ele riu, baixinho.


— Essa sua franqueza eu adoro.


A última palavra fez Lua estremecer.


—  Continue, sei que não acabou.


— Você estava sofrendo, se recuperando de um trauma terrível. Eu li os artigos. — A voz dela não escondia a raiva da mulher que o abandonara num momento tão difícil. — Ficou semanas no hospital, enfrentou tratamentos prolongados, fisioterapia. Pelo que sofreu, tem sorte de estar vivo. — O osso da coxa fora substituído por uma placa de metal, o quadril esquerdo estilhaçado, assim como todo o lado esquerdo do corpo. O ombro tinha sido esmagado, e havia pinos de metal no braço, nos dedos e nas costelas. — Sua determinação para curar-se foi admirável.

...CONTINUA!...

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