— Desculpe-me. Vou para outro lugar.
Arthur suspirou,
desejando virar e fitá-la nos olhos.
— Não quero que sinta
que precisa afastar-se de onde estou.
— Mas é exatamente o
que quer. Preferia que eu não estivesse aqui, não é mesmo? — Ela viu que os ombros
dele enrijeciam. — O mínimo que podemos fazer é ser honestos um com o outro.
Arthur apertou os
lábios, suspirando mais uma vez.
— É verdade.
Mas posso garantir que não me importo de não ter mais a casa só para mim.
— Não precisa se
esconder.
— Eu não me
escondo. Escolhi este estilo de vida, srta. Blanco, e nos últimos quatro anos
aprendi que é a melhor maneira de viver.
— Quer dizer, a
mais fácil.
— Nada é fácil para
mim, senhorita.
— E quanto a sua
filha? Ela espera encontrar o pai. Precisa de carinho e conforto. Perdeu a mãe.
O peito de Arthur
apertou-se ao pensar na tristeza de Sofia, e como gostaria de confortá-la.
— Foi por isso que a
contratei, srta. Blanco .
— E não se importa
com ela?
Como podia dizer a
Lua que ao saber da existência da filha, poucas semanas atrás, sentira raiva da
mãe de Sofia, por abandoná-lo, carregando no ventre o bebê que era deles, por
não lhe dar uma chance de conhecer a criança, antes de lhe tirar tudo que
tinha. O amor pela mulher desaparecera quando ela partira, abandonando-o quando
ele mais precisava, condenando-o à prisão e ao isolamento. Como podia esquecer
o passado?
— Eu me importo.
Muito. Mas mal tive tempo de me acostumar com a ideia de que sou pai. — Ele
começou a andar para a garagem.
— É bom se acostumar
— disparou Lua, enquanto ele se afastava. — Depois de amanhã ela estará aqui,
querendo vê-lo, e como poderei explicar que o pai não quer encontrá-la?
— Diga a verdade —
respondeu ele, sem parar de andar. — Que o pai não quer ser mais uma fonte de
pesadelos para ela.
A resposta deixou-a
sem ação, e antes que pudesse pensar no que dizer, ele tinha desaparecido.
Virando-se, ela fitou Micael.
— Acho que as coisas não
correram muito bem, não é? — Micael observou-a atentamente, como se estivesse
avaliando cada detalhe, e Lua não saberia dizer qual fora a impressão do homem,
já que sua expressão continuava impenetrável.
— Não, madame.
— Sou Lua
Blanco.
— O sr. Aguiar
disse.
— E o que mais ele
falou a meu respeito?
A expressão de Micael
continuou impenetrável, e ele virou-se para arrumar as pilhas de madeira. Por
certo precisariam delas para aquecer-se nas noites de tempestade, imaginou Lua,
pensando em como o castelo de pedra devia ser frio no inverno.
— Todos na cidade têm
uma imagem errada dele. Mas já deve saber disso, não é? — Ela admirava o fato
de o caseiro respeitar o segredo de Aguiar, mesmo exposto à curiosidade de
todos.
Micael arrumou mais
uma pilha
— Lua — corrigiu ela,
virando-se para a casa e acrescentando: — Estou esperando que entreguem as
compras. Assim, acho melhor recolocar aquela expressão séria no rosto. Afinal,
é o que todos esperam, não é mesmo?
Micael olhou-a
afastar-se, lutando para esconder um sorriso.
— Sim, senhora.
— Poderia ao menos me
dizer como é a rotina dele? Assim poderei ficar fora do caminho.
Micael afastou o boné
para trás, fitando-a por alguns instantes, antes de falar:
— Não.
— O quê? — Ela
não podia acreditar no que ouvira.
— O sr. Aguiar
não segue rotinas, faz o que quer. Se encontrá-lo novamente vai ter que lidar
com a situação.
— Obrigada pela
ajuda. — Lua cruzou os braços, fitando-o diretamente. — Prefere vê-lo se
escondendo, ou saindo da toca para conhecer a filha?
Ele não respondeu, e
ficou bem claro para Lua o quanto era leal ao patrão. Mas quando ele segurou o
machado, disposto a recomeçar o trabalho que Aguiar interrompera, ela o
impediu, segurando o braço que se erguia.
— Não vou sair daqui
até ter certeza de que Sofia tem todo o cuidado e atenção que merece. Entendeu,
sr. Borges?
Os olhos dele
brilharam, embora a expressão do rosto continuasse inalterada.
— Sim, senhora. E
pode me chamar de Micael, senhora.
O doce aroma de algo
assando espalhava-se pela casa, mesclando-se ao som de risadas. Aquilo o
atraiu, embora descesse pela antiga escada de serviço, para não ser visto.
Passagens escondidas atrás das paredes formavam um labirinto, através do qual
podia mover-se sem ser visto, apesar de os corredores serem bem estreitos.
Fazia muito tempo que não passava por la, depois de tê-los descoberto. Não
gostava da sensação de passar por eles, mas havia pessoas na casa, depois de
anos em que ele e Micael haviam sido os únicos moradores. Mas agora ela
estava ali, assando algo na cozinha. A vontade de vê-ia o atraía tanto quanto o
aroma do que assava no forno. Mas, acima de tudo, era a risada límpida e espontânea
que o atraíra. Podia distingui-la facilmente no meio das outras vozes. Havia
algo em Lua Blanco que lhe despertava sensações que julgara adormecidas. Ela o
desafiava, provocava, mas Arthur sabia que, se cedesse à tentação de ver
o rosto dela, teria muito a perder. A filha precisava de Lua, uma vez que ele
não podia ficar com ela.
Parando no fim do
corredor escuro, afastou um pouco o painel disfarçado que cobria a parede. Ela
estava tirando uma assadeira do forno e colocando biscoitos num prato. Era uma
cena tão doméstica, comum, algo que Melanie nunca se incomodara em fazer, que o
pegou de surpresa. Havia três pessoas sentadas nos bancos altos. Lua ofereceu
os biscoitos aos convidados. Convidados, ali, na casa dele. Pela primeira vez.
Queria ficar zangado. Queria que fossem embora, pela simples razão de que não
podia unir-se a eles. E ao vê-la conversando, tão animada, seu isolamento
parecia ainda mais difícil e amargo.
Mas ela era tão
linda, os homens pareciam fascinados pelo que dizia. E então, quando Lua
inclinou-se para colocar outra assadeira no forno, Arthur percebeu que todos
olhavam as formas do corpo bem-feito. Será que os homens estavam ali movidos
pela curiosidade em relação ã casa, ou apenas por causa dela?
— É uma casa muito
grande — disse o adolescente, que ele reconheceu como o entregador que trazia
as compras.
— Sim, é enorme
— respondeu ela, colocando colheradas de massa na forma.
— Apavorante — disse
um dos homens, olhando ao redor.
— Adoro a casa
— afirmou Lua. — É linda, charmosa. A arquitetura, as pedras, tudo lembra a
história de muitas partes do mundo.
Era exatamente o que
sentira ao ver a casa, pensou Arthur, inclinando-se para ouvir melhor.
— Você já o viu?
— É claro.
— É muito horrível?
Arthur esperou pela
resposta, prendendo a respiração.
— Não tem nada de
mais.
Nada de mentiras, nem
de informações, e ele imaginou por que Lua estaria agindo assim.
— Então por que se
esconde?
— Ele é um
homem reservado, e talvez por não ter sido bem recebido... — Lua parou de
arrumar os biscoitos e virou-se, fitando-os por cima do ombro. Arthur percebeu
a determinação na voz dela. — E se alguém ousar fazer qualquer comentário na
frente da filha dele, terei que mostrar como meu avô me ensinou a atirar muito
bem. E também como tirar a pele dos animais que caçávamos. Arthur disfarçou
uma risada, e quando olhou novamente, os convidados riam, sem jeito, não muito
certos se ela falava a sério ou não. Logo se despediam, agradecendo pelo café.
Lua acompanhou-os, fechando a porta assim que saíram. Voltando
para o balcão, pegou a forma que acabara de encher e colocou-a no forno, no
lugar da que já estava pronta. Não conhecia nenhuma criança que não gostasse de
biscoitos de chocolate, e esperava que Sofia não fosse uma exceção. Queria que
a menina se sentisse bem-vinda naquela casa escura e silenciosa. De repente,
percebeu que não estava sozinha e ergueu o olhar. Então o viu, uma sombra
escura entre a parede do canto e a porta entreaberta da despensa.
Uma sombra grande,
larga, da qual só podia ver o jeans surrado que cobria as pernas fortes. Como
chegara até ali sem que o visse?
— Gostaria de pensar
que a receita de biscoitos da minha avó o atraiu até aqui, mas não tenho
ilusões.
— Linda e esperta.
Lua enrijeceu de
imediato. Será que todos tinham que falar de sua beleza, nos primeiros dez
minutos de conversa?
— Quer um biscoito?
— Não, obrigado.
— Não diga que
é uma dessas pessoas que não gosta de biscoitos de chocolate...
— Não.
— Já sei. Não quer
vir até a luz para pegá-lo, não é? — Ele não respondeu.
— O que mais nega a
si mesmo, ao escolher viver no escuro? — Ao falar, ela atirou um biscoito na
direção dele.
A mão surgiu na luz,
apanhando o biscoito no ar, e ela pôde ver o anel de sinete faiscar.
— E o que vai negar a
Sofia?
— Pesadelos, srta.
Blanco.
— Pode me chamar de
Lua .. E acho que está enganando a si mesmo.
— Não sabe nada a meu
respeito, bela — zombou ele. Ela largou a espátula sobre o balcão, num gesto
brusco.
— Tem razão,
não sei. Assim como não sabe nada a meu respeito... fera. — Virando-se para o
fogão, tirou a assadeira com os biscoitos prontos, colocando outra no lugar.
Fechando os olhos, tentou, em vão, afastar as lembranças dolorosas. Bela...
Rainha de beleza. De que lhe adiantara isso, se não tinha sequer conseguido
manter o noivo, pensou, cerrando os punhos.
Arthur endireitou-se,
imaginando por que estaria tão perturbada.
— Lua...
O nome foi pronunciado num tom rouco, sensual, oferecendo uma simpatia que ela não desejava. Os homens, as pessoas, em geral, notavam-lhe primeiro o rosto. Era natural. E Arthur era um homem o que mais poderia esperar?
— Desculpe-me — disse
Lua. — Fui muito cruel. — Arthur já ouvira coisas piores.
— Deixei você
furiosa. Diga por que.
— Não é nada. — Ela
continuava arrumando os biscoitos, embalando-os em sacos plásticos.
— Mentirosa.
— Vamos começar de
novo? — perguntou, baixinho. Abriu a geladeira e pegou um pedaço de carne e
alguns legumes, que colocou sobre o balcão. Não se conheciam o bastante para
falar sobre o passado dela, nem pretendia começar a lamentar-se. Tinha muito o
que fazer, e não desperdiçaria energia com lembranças tristes. Depois de
temperar a carne, voltou a colocá-la na geladeira. Cortou os legumes
cuidadosamente, tentando ignorar a presença máscula. Mas era impossível. O
calor que emanava dele era tão forte, que parecia estar perto de uma fogueira.
— Está me observando.
— Como sabe?
— Posso sentir.
Será que sabia que
ele também podia senti-la?
— E o que
sente?
Lua parou. As
palavras, murmuradas num tom suave, convidavam à intimidade, trazendo um desejo
inesperado. O coração dela disparou.
— É como uma invasão.
— Ela arrumou os legumes numa travessa, cobrindo-os com água. — E não gosto
disso — completou, colocando-os na geladeira.
— É uma mulher
muito linda Lua. Que homem não a olharia? Você sabe disso.
— Sim, sei como as
pessoas valorizam a aparência — murmurou, desligando o forno.
— Eu também —
declarou Arthur, num tom amargo.
— Então temos algo em
comum. — Ela tirou a última assadeira do forno, colocando-a sobre o fogão,
antes de virar-se.
Ele tinha
desaparecido. Como se um vento frio a atingisse, soube que não estava mais ali.
— Também não gosto
disso, Arthur — gritou, para a casa vazia.
Não houve resposta, e
nem ela esperava isso.
Arthur desceu pela
escada de serviço trazendo os pratos do jantar. Depois de colocá-los na
lavadora, pegou um biscoito na assadeira sobre o fogão. Mastigando, atravessou
a sala de jantar e chegou à biblioteca, estranhando o ar frio que penetrava na
casa. Ao entrar na sala de estar, parou de repente. Cada fibra do corpo dele
reagiu ao vê-la. Lua estava na varanda, atrás da sala, e as portas francesas
estavam completamente abertas. As mãos dela apoiavam-se na grade, e o roupão
leve, verde-claro, flutuava ao sabor da brisa da noite com a lua clara e
redonda. A frente dela, o mar batia no cais, iluminado apenas pelas luzes
suaves que cercavam a casa.
Arthur poderia jurar
que estava vendo um anjo. O vento erguia os cabelos Loiros, fazendo-os flutuar.
— Não é
fantástico? — perguntou ela.
Ele enrijeceu,
sentindo-se encurralado na própria casa.
— Não é? — insistiu,
virando-se levemente na direção dele. Arthur sabia que não podia vê-lo
claramente, com a luz.
.
— Gosta deste tempo?
Lua voltou a olhar o
mar. Ao longe se viam relâmpagos.
— É meu favorito.
Tempestades, trovões, chuva...
Arthur percebeu que ela lhe dera as costas de
propósito dando-lhe a chance de
se aproximar. O gesto o comoveu, mas ao mesmo tempo deixou-o inquieto. Será que
ela viraria de repente e começaria a gritar? Ainda assim, reconheceu que não
podia resistir ao desejo de se aproximar mais um pouco. Saindo para a varanda,
encostou-se nas cortinas que voavam pelas portas abertas e que podiam lhe dar
alguma proteção.
— Obrigado pelo
jantar.
Ela deixara a bandeja
do lado de fora da porta do quarto dele, numa mesinha que carregara para cima.
— Por nada. Não
precisa comer lá em cima, sozinho, sr. Aguiar.
— O que pretende? Que
jantemos como duas pessoas civilizadas?
— Por que não?
— Acho que já sabe a
resposta.
— E o que devo
dizer a Sofia? Sinto muito por ter perdido sua mãe, e olhe, na verdade não tem
um pai. Apenas um benfeitor.

























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