segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

A Bela e a Fera (Capítulo 3)




             Desculpe-me. Vou para outro lugar. 

Arthur suspirou, desejando virar e fitá-la nos olhos.



— Não quero que sinta que precisa afastar-se de onde estou.


— Mas é exatamente o que quer. Preferia que eu não estivesse aqui, não é mesmo? — Ela viu que os ombros dele enrijeciam. — O mínimo que podemos fazer é ser honestos um com o outro.


Arthur apertou os lábios, suspirando mais uma vez.


—  É verdade. Mas posso garantir que não me importo de não ter mais a casa só para mim.


— Não precisa se esconder.


—  Eu não me escondo. Escolhi este estilo de vida, srta. Blanco, e nos últimos quatro anos aprendi que é a melhor maneira de viver.


—  Quer dizer, a mais fácil.


— Nada é fácil para mim, senhorita.


— E quanto a sua filha? Ela espera encontrar o pai. Precisa de carinho e conforto. Perdeu a mãe.


O peito de Arthur apertou-se ao pensar na tristeza de Sofia, e como gostaria de confortá-la.


— Foi por isso que a contratei, srta. Blanco .


— E não se importa com ela?


Como podia dizer a Lua que ao saber da existência da filha, poucas semanas atrás, sentira raiva da mãe de Sofia, por abandoná-lo, carregando no ventre o bebê que era deles, por não lhe dar uma chance de conhecer a criança, antes de lhe tirar tudo que tinha. O amor pela mulher desaparecera quando ela partira, abandonando-o quando ele mais precisava, condenando-o à prisão e ao isolamento. Como podia esquecer o passado?


— Eu me importo. Muito. Mas mal tive tempo de me acostumar com a ideia de que sou pai. — Ele começou a andar para a garagem.


— É bom se acostumar — disparou Lua, enquanto ele se afastava. — Depois de amanhã ela estará aqui, querendo vê-lo, e como poderei explicar que o pai não quer encontrá-la?


— Diga a verdade — respondeu ele, sem parar de andar. — Que o pai não quer ser mais uma fonte de pesadelos para ela.


A resposta deixou-a sem ação, e antes que pudesse pensar no que dizer, ele tinha desaparecido. Virando-se, ela fitou Micael.

 Acho que as coisas não correram muito bem, não é? — Micael observou-a atentamente, como se estivesse avaliando cada detalhe, e Lua não saberia dizer qual fora a impressão do homem, já que sua expressão continuava impenetrável.

—  Não, madame.


—  Sou Lua Blanco.


—  O sr. Aguiar disse.


— E o que mais ele falou a meu respeito?


A expressão de Micael continuou impenetrável, e ele virou-se para arrumar as pilhas de madeira. Por certo precisariam delas para aquecer-se nas noites de tempestade, imaginou Lua, pensando em como o castelo de pedra devia ser frio no inverno.


— Todos na cidade têm uma imagem errada dele. Mas já deve saber disso, não é? — Ela admirava o fato de o caseiro respeitar o segredo de Aguiar, mesmo exposto à curiosidade de todos.


Micael arrumou mais uma pilha

 Lua — corrigiu ela, virando-se para a casa e acrescentando: — Estou esperando que entreguem as compras. Assim, acho melhor recolocar aquela expressão séria no rosto. Afinal, é o que todos esperam, não é mesmo?

Micael olhou-a afastar-se, lutando para esconder um sorriso.


— Sim, senhora.



— Poderia ao menos me dizer como é a rotina dele? Assim poderei ficar fora do caminho.


Micael afastou o boné para trás, fitando-a por alguns instantes, antes de falar:


—  Não.


—  O quê? — Ela não podia acreditar no que ouvira.


— O sr. Aguiar não segue rotinas, faz o que quer. Se encontrá-lo novamente vai ter que lidar com a situação.


— Obrigada pela ajuda. — Lua cruzou os braços, fitando-o diretamente. — Prefere vê-lo se escondendo, ou saindo da toca para conhecer a filha?


Ele não respondeu, e ficou bem claro para Lua o quanto era leal ao patrão. Mas quando ele segurou o machado, disposto a recomeçar o trabalho que Aguiar interrompera, ela o impediu, segurando o braço que se erguia.


— Não vou sair daqui até ter certeza de que Sofia tem todo o cuidado e atenção que merece. Entendeu, sr. Borges?


Os olhos dele brilharam, embora a expressão do rosto continuasse inalterada.


— Sim, senhora. E pode me chamar de Micael, senhora.




O doce aroma de algo assando espalhava-se pela casa, mesclando-se ao som de risadas. Aquilo o atraiu, embora descesse pela antiga escada de serviço, para não ser visto. Passagens escondidas atrás das paredes formavam um labirinto, através do qual podia mover-se sem ser visto, apesar de os corredores serem bem estreitos. Fazia muito tempo que não passava por la, depois de tê-los descoberto. Não gostava da sensação de passar por eles, mas havia pessoas na casa, depois de anos em que ele e Micael  haviam sido os únicos moradores. Mas agora ela estava ali, assando algo na cozinha. A vontade de vê-ia o atraía tanto quanto o aroma do que assava no forno. Mas, acima de tudo, era a risada límpida e espontânea que o atraíra. Podia distingui-la facilmente no meio das outras vozes. Havia algo em Lua Blanco que lhe despertava sensações que julgara adormecidas. Ela o desafiava, provocava, mas Arthur  sabia que, se cedesse à tentação de ver o rosto dela, teria muito a perder. A filha precisava de Lua, uma vez que ele não podia ficar com ela.


Parando no fim do corredor escuro, afastou um pouco o painel disfarçado que cobria a parede. Ela estava tirando uma assadeira do forno e colocando biscoitos num prato. Era uma cena tão doméstica, comum, algo que Melanie nunca se incomodara em fazer, que o pegou de surpresa. Havia três pessoas sentadas nos bancos altos. Lua ofereceu os biscoitos aos convidados. Convidados, ali, na casa dele. Pela primeira vez. Queria ficar zangado. Queria que fossem embora, pela simples razão de que não podia unir-se a eles. E ao vê-la conversando, tão animada, seu isolamento parecia ainda mais difícil e amargo.


Mas ela era tão linda, os homens pareciam fascinados pelo que dizia. E então, quando Lua inclinou-se para colocar outra assadeira no forno, Arthur percebeu que todos olhavam as formas do corpo bem-feito. Será que os homens estavam ali movidos pela curiosidade em relação ã casa, ou apenas por causa dela?


— É uma casa muito grande — disse o adolescente, que ele reconheceu como o entregador que trazia as compras.


— Sim, é enorme — respondeu ela, colocando colheradas de massa na forma.

— Apavorante — disse um dos homens, olhando ao redor.


—  Adoro a casa — afirmou Lua. — É linda, charmosa. A arquitetura, as pedras, tudo lembra a história de muitas partes do mundo.


Era exatamente o que sentira ao ver a casa, pensou Arthur, inclinando-se para ouvir melhor.


— Você já o viu?


— É claro.


— É muito horrível?


Arthur esperou pela resposta, prendendo a respiração.


— Não tem nada de mais.


Nada de mentiras, nem de informações, e ele imaginou por que Lua estaria agindo assim.


— Então por que se esconde?


—  Ele é um homem reservado, e talvez por não ter sido bem recebido... — Lua parou de arrumar os biscoitos e virou-se, fitando-os por cima do ombro. Arthur percebeu a determinação na voz dela. — E se alguém ousar fazer qualquer comentário na frente da filha dele, terei que mostrar como meu avô me ensinou a atirar muito bem. E também como tirar a pele dos animais que caçávamos. Arthur disfarçou uma risada, e quando olhou novamente, os convidados riam, sem jeito, não muito certos se ela falava a sério ou não. Logo se despediam, agradecendo pelo café.

Lua  acompanhou-os, fechando a porta assim que saíram. Voltando para o balcão, pegou a forma que acabara de encher e colocou-a no forno, no lugar da que já estava pronta. Não conhecia nenhuma criança que não gostasse de biscoitos de chocolate, e esperava que Sofia não fosse uma exceção. Queria que a menina se sentisse bem-vinda naquela casa escura e silenciosa. De repente, percebeu que não estava sozinha e ergueu o olhar. Então o viu, uma sombra escura entre a parede do canto e a porta entreaberta da despensa.

Uma sombra grande, larga, da qual só podia ver o jeans surrado que cobria as pernas fortes. Como chegara até ali sem que o visse?


— Gostaria de pensar que a receita de biscoitos da minha avó o atraiu até aqui, mas não tenho ilusões.


— Linda e esperta.


Lua enrijeceu de imediato. Será que todos tinham que falar de sua beleza, nos primeiros dez minutos de conversa?


— Quer um biscoito?


— Não, obrigado.


—  Não diga que é uma dessas pessoas que não gosta de biscoitos de chocolate...


—  Não.


— Já sei. Não quer vir até a luz para pegá-lo, não é?  Ele não respondeu.


— O que mais nega a si mesmo, ao escolher viver no escuro? — Ao falar, ela atirou um biscoito na direção dele.


A mão surgiu na luz, apanhando o biscoito no ar, e ela pôde ver o anel de sinete faiscar.


— E o que vai negar a Sofia?


— Pesadelos, srta. Blanco.


— Pode me chamar de Lua .. E acho que está enganando a si mesmo.


— Não sabe nada a meu respeito, bela — zombou ele. Ela largou a espátula sobre o balcão, num gesto brusco.


—  Tem razão, não sei. Assim como não sabe nada a meu respeito... fera. — Virando-se para o fogão, tirou a assadeira com os biscoitos prontos, colocando outra no lugar. Fechando os olhos, tentou, em vão, afastar as lembranças dolorosas. Bela... Rainha de beleza. De que lhe adiantara isso, se não tinha sequer conseguido manter o noivo, pensou, cerrando os punhos.


Arthur endireitou-se, imaginando por que estaria tão perturbada.


— Lua...


O nome foi pronunciado num tom rouco, sensual, oferecendo uma simpatia que ela não desejava. Os homens, as pessoas, em geral, notavam-lhe primeiro o rosto. Era natural. E Arthur era um homem o que mais poderia esperar? 

— Desculpe-me — disse Lua. — Fui muito cruel.  Arthur já ouvira coisas piores.


—  Deixei você furiosa. Diga por que.


— Não é nada. — Ela continuava arrumando os biscoitos, embalando-os em sacos plásticos.


— Mentirosa.


— Vamos começar de novo? — perguntou, baixinho. Abriu a geladeira e pegou um pedaço de carne e alguns legumes, que colocou sobre o balcão. Não se conheciam o bastante para falar sobre o passado dela, nem pretendia começar a lamentar-se. Tinha muito o que fazer, e não desperdiçaria energia com lembranças tristes. Depois de temperar a carne, voltou a colocá-la na geladeira. Cortou os legumes cuidadosamente, tentando ignorar a presença máscula. Mas era impossível. O calor que emanava dele era tão forte, que parecia estar perto de uma fogueira.


— Está me observando.


—  Como sabe?


— Posso sentir.


Será que sabia que ele também podia senti-la?


—  E o que sente?


Lua parou. As palavras, murmuradas num tom suave, convidavam à intimidade, trazendo um desejo inesperado. O coração dela disparou.


— É como uma invasão. — Ela arrumou os legumes numa travessa, cobrindo-os com água. — E não gosto disso — completou, colocando-os na geladeira.


—  É uma mulher muito linda Lua. Que homem não a olharia? Você sabe disso.


— Sim, sei como as pessoas valorizam a aparência — murmurou, desligando o forno.


— Eu também — declarou Arthur, num tom amargo.


— Então temos algo em comum. — Ela tirou a última assadeira do forno, colocando-a sobre o fogão, antes de virar-se.


Ele tinha desaparecido. Como se um vento frio a atingisse, soube que não estava mais ali.

 Também não gosto disso, Arthur — gritou, para a casa vazia.

Não houve resposta, e nem ela esperava isso.


Arthur desceu pela escada de serviço trazendo os pratos do jantar. Depois de colocá-los na lavadora, pegou um biscoito na assadeira sobre o fogão. Mastigando, atravessou a sala de jantar e chegou à biblioteca, estranhando o ar frio que penetrava na casa. Ao entrar na sala de estar, parou de repente. Cada fibra do corpo dele reagiu ao vê-la. Lua estava na varanda, atrás da sala, e as portas francesas estavam completamente abertas. As mãos dela apoiavam-se na grade, e o roupão leve, verde-claro, flutuava ao sabor da brisa da noite com a lua clara e redonda. A frente dela, o mar batia no cais, iluminado apenas pelas luzes suaves que cercavam a casa.


Arthur poderia jurar que estava vendo um anjo. O vento erguia os cabelos Loiros, fazendo-os flutuar.


—  Não é fantástico? — perguntou ela.


Ele enrijeceu, sentindo-se encurralado na própria casa.


— Não é? — insistiu, virando-se levemente na direção dele. Arthur sabia que não podia vê-lo claramente, com a luz.
.

— Gosta deste tempo?


Lua voltou a olhar o mar. Ao longe se viam relâmpagos.


— É meu favorito. Tempestades, trovões, chuva... 

Arthur percebeu que ela lhe dera as costas de propósito dando-lhe a chance de se aproximar. O gesto o comoveu, mas ao mesmo tempo deixou-o inquieto. Será que ela viraria de repente e começaria a gritar? Ainda assim, reconheceu que não podia resistir ao desejo de se aproximar mais um pouco. Saindo para a varanda, encostou-se nas cortinas que voavam pelas portas abertas e que podiam lhe dar alguma proteção.


—  Obrigado pelo jantar.


Ela deixara a bandeja do lado de fora da porta do quarto dele, numa mesinha que carregara para cima.


—  Por nada. Não precisa comer lá em cima, sozinho, sr. Aguiar.


— O que pretende? Que jantemos como duas pessoas civilizadas?


— Por que não?


— Acho que já sabe a resposta.


—  E o que devo dizer a Sofia? Sinto muito por ter perdido sua mãe, e olhe, na verdade não tem um pai. Apenas um benfeitor.

...CONTINUA!...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

 

©código base por Ana .
©layout por Sabrina - Fashion Cats Designs