terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A Bela e a Fera (Capítulo 4)




          Diga a ela o que achar melhor.

— Sei que se importa, sr. Aguiar. Vi o quarto dela.


— Só porque não quero vê-la, não significa que não quero que fique confortável aqui. Não percebe? Ela é uma criança. Um simples olhar para o que sobrou do meu rosto, e terá pesadelos por uma semana. — Ele sacudiu a cabeça. — Acho que devo poupar a nós dois dessa situação.

Lua chegou mais perto, e viu que ele cruzava os braços à frente do peito, numa atitude defensiva. O gesto era claro. Não poderia alcançá-lo. Não agora.

— Acha mesmo que uma criança vai se satisfazer com isso?

— Terá que ser assim.

— Mas sou uma estranha.

— Eu também.

Lua suspirou, frustrada, cerrando os punhos.

— É um homem muito difícil.

Houve um instante de silêncio, antes de ele responder:

—  Só quero protegê-la.

— Impedi-la de conhecê-lo não é proteção.

— Por acaso é uma autoridade em crianças? — A voz dele revelava descrença.

— Tenho alguma experiência.

— É mesmo?

Pouco importava o tom crítico na voz dele, pensou Lua.

— Não gosta que outras pessoas vejam o que lhe aconteceu, e então se esconde. Só vê aquilo que quer. Não tive filhos, mas gostaria de ter. Fui professora na escola da embaixada por vários anos, e cursei psicologia infantil na universidade. Além disso, sou a mais velha de cinco irmãos. Não acha suficiente?

Com raiva, afastou-se da grade e já ia entrar, quando Arthur segurou-a pelo braço. Os dois foram envolvidos pelas dobras das cortinas que flutuavam ao vento.
Lua mal conseguia respirar, e seu coração batia acelerado. Ele era um homem grande, forte, e os dedos circundavam-lhe o braço, impedindo-a de mover-se. Estava consciente da proximidade dele, do perfume masculino, do corpo que quase tocava o dela, fazendo-a estremecer.

Ele era misterioso, intenso.

O que a atraía não era a solidão dele, nem a amargura. Era o homem que sofrera muito, mas sobrevivera. Que não deixara ninguém se aproximar. Lua  viu a sombra da cabeça dele aproximar-se e soube que desejava beijá-la. E quase desejou que o fizesse.

— Você tem perfume de... liberdade — sussurrou ele, cada célula do corpo gritando que era um homem, e que ela era uma linda mulher.

Mesmo sabendo que devia fazer anos que ele não estava com uma mulher, que devia afastar-se depressa, Lua foi incapaz de resistir ao desejo de tocá-lo. Erguendo a mão, colocou-a no peito forte.

A respiração dele ficou ofegante, e num gesto brusco afastou-se, subitamente consciente do que acontecia.

— Não quero sua piedade, e isto é errado.

Ele afastou-a e Lua perdeu o equilíbrio, enquanto Arthur entrava depressa, desaparecendo na casa, de volta à sua caverna escura.

Queria dizer-lhe que a última coisa que sentira em seus braços era piedade. Mas ele já se fora.

Era um tolo. O abandono da mulher não lhe ensinara nada, ou não teria tocado Lua . Sentado na escrivaninha, o sol nascendo atrás dele, Arthur bateu nas teclas, fazendo uma porção de erros, até desistir, empurrando o teclado. Recostando-se na cadeira de couro, fechou os olhos, e quase pôde sentir a maciez daquele corpo que tanto desejava tocar.

E que homem não desejaria fazê-lo, pensou. O corpo de Lua era curvilíneo, e ela tinha um jeito de andar que quase o enlouquecia. Ele sacudiu a cabeça. Seria mais difícil do que tinha pensado, e sabia que a lembrança de tocá-la seria tão torturante quanto a própria ação.

Era a babá, lembrou a si mesmo. Fora contratada para ajudá-lo.

Levantando-se, foi até a janela. Que Deus me ajude, pensou. Lua era o sonho de qualquer homem. E estaria ali por muito tempo, provocando-o.

Atrás dele, o e-mail soava, o fax gemia, e Arthur ignorava tudo, os olhos presos à faixa de areia lá embaixo. Havia pegadas no solo úmido, e imediatamente soube que eram de Lua. Será que levaria Sofia para longos passeios, à procura de conchas? Será que Sofia gostaria dali? E do quarto, dos brinquedos? Ou ficaria assustada, com medo? As perguntas surgiam-lhe na mente, e teve que admitir que não sabia nada sobre a filha de quatro anos. Mas Sofia era tudo que tinha no mundo, e faria o possível para que nada lhe faltasse.

Exceto você mesmo, disse uma voz interior, e a culpa dominou-o.

E se nada daquilo fosse suficiente, e traumatizasse a menina? Era tão pequena, inocente. No momento, não tinha dúvidas de que Lua cuidaria de tudo. Era encantadora, mesmo com aquela língua afiada, e suspeitava que Sofia acabaria se divertindo, depois de ter passado de um amigo para outro, após o acidente. Tanto ele quanto Melanie não tinham família. Soubera da morte da mulher por um policial, e cinco dias depois um advogado, executor do testamento de Melanie, o informara da existência da filha. Com a permissão dele, Katherine Davenport tirara Sofia do abrigo do Serviço Social, e tomara providências para arranjar uma babá, e trazer a menina para a ilha. Era tudo tão frio, formal. Melanie escondera a criança até a tragédia acontecer. Mas ele tivera tempo suficiente para pensar na mulher que havia conhecido num baile de caridade, e com quem se casara, sete anos atrás.

Melanie tinha sido linda, como uma boneca de porcelana, embora durante o casamento tivesse ficado cada vez mais egoísta e exigente, gostando muito mais do estilo de vida que tinham do que dele. Agora percebia que ela gostava das empregadas e cozinheiros, e que quanto mais lhe dava, mais queria. Até que ele desejara ter filhos, parar de viajar o tempo todo. Ela havia discutido e reclamado, até Arthur ceder. Devia ter engravidado naquela noite selvagem, na praia, na véspera do acidente. Apesar disso, quando o acidente o privara da beleza que a atraíra, Melanie o abandonara. Não a culpava por tê-lo feito.Ela era frágil, imatura, e ele por certo não fora mais o mesmo homem. Nem por fora, nem por dentro. Tentava imaginar o que Melanie dissera a Sofia sobre ele, mas logo desistiu. Não fazia diferença. Suspirando, voltou a trabalhar no computador, até que uma voz suave soou no interfone:

—  Muito trabalho sem comer, deixa o sr. Aguiar de mau humor.

Arthur sacudiu a cabeça, com um meio sorriso. Apertando o botão do interfone, perguntou:

— Preparou alguma coisa? — O estômago dele roncou, diante da perspectiva de uma refeição.

—  Sim. E Micael não vai conseguir comer tudo. — Houve uma pausa, mas logo ela continuou: — Nunca fui capaz de cozinhar para menos de seis pessoas. Ainda bem que gosto de sobras, não é?

Arthur imaginou se alguma vez ela ficava de mau humor, e sentiu-se grato por não mencionar a noite anterior. Não queria a piedade dela. Já aprendera o suficiente a esse respeito com a ex-mulher. Não podia esquecer o modo como ela se encolhia, cada vez que tentava tocá-la. Sacudindo a cabeça, pensou em como fora tolo na noite anterior. Mas parte dele queria saber se Lua sentira o mesmo calor que o invadira. Nem Melanie conseguira provocar uma reação como aquela, e ele a amara.

—  Estou com fome.

Lua  tentou não gostar tanto da voz dele, nem lembrar-se de como parecera sedutor na tênue luz da varanda. Mais uma vez se perguntava como podia sentir tanta atração por um homem que nunca vira, embora soubesse que a aparência, o dinheiro ou o charme, pouco tinham a ver com o que o corpo dizia. E o corpo de Arthur Aguiar dizia muita coisa. Lua só esperava que o seu não entendesse...

— Vou levar aí em cima — disse, por fim. Ele detestava estar isolado ali.

—  Obrigado — agradeceu.

Um momento de silêncio, e então ela disse:

— Recebi seu e-mail com as regras.

— E estou certo de que quer fazer algum comentário — retrucou ele, e quase podia ver como ela cerrava os lábios, furiosa.

— Alguma delas é negociável?

— Por exemplo?

— Esta sobre não ir ao terceiro andar. Como a empregada vai fazer a limpeza?

—  Ela conhece as regras. Avisa antes de subir, e eu simplesmente vou para outra parte da casa.

—  Entendo. — Arthur ouviu-a suspirar. — Essa comunicação pelo interfone é tão impessoal.

— É assim que tem que ser Lua.

Lá embaixo, na cozinha, ela encostou a testa na parede. Cabeça dura.

— Nada é imutável, sabia?

— Não. — Ele parou por alguns instantes. — O que você quer, Lua?

A irritação dele atingiu-a, provocando uma reação imediata. O que queria? Apenas uma vida normal. Antes que Sofia chegasse. Mas sabia que Arthur continuaria resistindo.

— Nada — respondeu, suavemente. — Acabarei dando um jeito de contornar as regras. Especialmente esta, de não andar pela casa à noite. Gosto de tomar chocolate quente, olhando as estrelas.

— Então deve estar se sentindo em casa aqui.

— É verdade.

Arthur queria que ela se sentisse à vontade, especialmente com Sofia chegando na manhã seguinte. Estava desesperado para que ficasse, especialmente depois que Katherine Davenport ligara naquela manhã, dizendo que não encontrara uma substituta qualificada. Arthur achou que estava zangada com ele, e não estava fazendo muito esforço.

Alguns minutos mais tarde, ouviu uma batida na porta. Arthur aproximou-se, espiando pelo visor. Ela era mesmo persistente.

— Deixe aí mesmo.

Ela mostrou a língua para a porta.

— Encantadora, srta. Blanco — disse, secamente. Lua sorriu, sem jeito, e colocou a bandeja de lado.

— Sobre a noite passada...

Arthur gemeu, baixinho, e apertou o botão do interfone, junto à porta. Foi errado tocá-la.

— Por quê? -ela perguntou e ele piscou, surpreso.


— É a babá da minha filha.


— Muito conveniente, não é?


— O quê?


Ela recuou um passo, diante do tom da voz dele.


— Bem, estou aqui, sou mulher e...


— E linda demais.


Os lábios dela apertaram-se, revelando toda a amargura que sentia. Quase desejou ter cicatrizes, como Arthur. Pelo menos saberia que os homens não a desejavam só pela beleza.


— Não é o que quis dizer.


— Está imaginando há quanto tempo não tenho uma mulher? A voz rouca fez os joelhos dela fraquejarem.


— É claro que não!


— Mentirosa.


Ela cruzou os braços, olhando para a porta.


— Ofender o outro é uma atitude infantil.


— Desculpe-me.


— Esqueça.


— Está bem.


Mas Lua duvidava. Especialmente depois que a evitara cuidadosamente, e depois a agarrara como se fosse a tábua de salvação de um náufrago. Ainda assim, não podia ignorar a eletricidade que os envolvera, o calor que percorrera seu corpo. E a vontade que sentira de tocá-lo, de provar a força daquele corpo alto e rijo. Ele a fizera sentir-se pequena, indefesa, e naqueles poucos segundos, protegida.


Não era algo que pudesse esquecer facilmente.


—  Se quiser mais, é só pedir — disse ela, afastando-se e descendo a escada.


Arthur pegou a bandeja, e admirou a enorme variedade de comidas: ovos, panquecas, salsichas, bacon, café, torradas, geleia e biscoitos. Teria que correr mais alguns quilômetros para queimar tudo aquilo, pensou, saboreando as delícias. E tentando não pensar na mulher que as preparara.

        Durante o resto do dia o contato entre eles foi mínimo. E Arthur esperou, impaciente, que a noite chegasse. As sombras o protegiam e lhe davam liberdade. Sentia-se como um vampiro, condenado à escuridão. A noite era sua amiga, embora amasse o dia, o sol.

Agora olhava para a mulher que dormia no sofá, com um livro aberto sobre o peito. Ele inclinou a cabeça para ler o título. Crianças e Pensar. Mais uma vez, pensou em como Sofia iria se apoiar nela, enquanto ele desejava confortá-la. Como queria abraçar a filha, acariciá-la, saber tudo sobre ela, vê-la crescer e aprender. Mais uma vez amaldiçoou Melanie por não ter lhe permitido compartilhar a vida de Sofia. Então percebeu, com enorme pesar, que estava confiando em Lua, para amar a filha no lugar dele.


Lua viu a balsa chegar e a grade de segurança ser levantada. As pessoas começavam a sair do barco, e ela procurou a garotinha na multidão, com a acompanhante que a traria até ali. O que viu foi à criança mais linda que jamais vira, de cabelos escuros, rosto angelical, agarrada à mão de Katherine Davenport.


Olhando para a ex-colega de faculdade, Lua sorriu.


—  Fico feliz que você a tenha trazido. Katherine olhou para a garotinha e sorriu.


— Achei que alguém familiar seria melhor do que um estranho.


Lua  podia ver as perguntas nos olhos de Katherine, desejando saber como iam as coisas com Arthur Aguiar. Sem querer lhe dar qualquer indicação do que acontecera na noite anterior, ficou grata ao ver que um homem se aproximava e pegava as malas de Sofia .Lua acompanhou-o até o carro que Arthur lhe permitia usar, e ele colocou as malas no banco de trás. Depois de pagá-lo, voltou para o par que a aguardava. Lua ajoelhou-se e sorriu para Sofia. A garotinha enterrou o rosto na saia de Katherine.


—  Olá, sou Lua.


— Olá — respondeu a garota, sem mostrar o rosto. Katherine afastou-se um pouco, forçando Sofia a fitá-la. Lua sentou-se no chão, com as pernas dobradas sob o corpo, como se tivessem todo o tempo do mundo.

Foi uma semana bem difícil, não é?
— Sim.


— Bem, agora vou cuidar muito bem de você, Sofia. — A menina ainda parecia pouco à vontade. — Eu prometo. Sei fazer uma porção de coisas. Podemos brincar na praia, andar de bicicleta, e talvez andar a cavalo.


ideia pareceu agradar, e Lua rezou, baixinho, para que ainda se lembrasse de como cavalgar.


—  Seu pai tem três cavalos, e não acho que façam muito exercício. Teremos que cuidar deles.


— Viu meu pai?


A esperança na voz da menina fez o coração de Lua se apertar.


—  Sim. Ele é muito simpático.


— Mamãe disse que ele foi ferido.


—  Sua mãe tinha razão. Foi sim. Mas agora está bem. — Não pretendia assustar a menina com detalhes assustadores. — Só não gosta que fiquem olhando para ele.


As sobrancelhas de Sofia ergueram-se, como se estivesse tentando entender por que não queria que olhassem para ele, se estava bem. Lua pretendia adiar o encontro dos dois, até que Sofia estivesse acomodada e à vontade.


—  Então, está pronta para ver sua nova casa?


Sofia assentiu, mastigando a ponta do suéter que vestia. Lua estendeu a mão, tirando-o delicadamente da boca da menina.


— Fale. Não consigo ouvir o que está dentro da sua cabeça. A garotinha quase sorriu.


—  Sim, senhora.


— Vai adorar, Sofia. É um castelo, como o da Cinderela.


— Verdade?


— Verdade.

Lua  levantou-se e estendeu a mão. Sofia olhou para Katherine, suspirou, e então segurou a mão de Lua, que mal pôde esconder a alegria. 

—  Não gostaria de vir até a casa? — convidou. — Tomar um café, antes de pegar a outra balsa? — Algumas pessoas já passavam por elas, a caminho do barco.


Katherine sacudiu a cabeça.

...CONTINUA!...

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