— Diga a ela o que achar melhor.
— Sei que se importa,
sr. Aguiar. Vi o quarto dela.
— Só porque não
quero vê-la, não significa que não quero que fique confortável aqui. Não
percebe? Ela é uma criança. Um simples olhar para o que sobrou do meu rosto, e
terá pesadelos por uma semana. — Ele sacudiu a cabeça. — Acho que devo poupar a
nós dois dessa situação.
Lua chegou mais
perto, e viu que ele cruzava os braços à frente do peito, numa atitude
defensiva. O gesto era claro. Não poderia alcançá-lo. Não agora.
— Acha mesmo que uma
criança vai se satisfazer com isso?
— Terá que ser assim.
— Mas sou uma
estranha.
— Eu também.
Lua suspirou,
frustrada, cerrando os punhos.
— É um homem muito
difícil.
Houve um instante de
silêncio, antes de ele responder:
— Só quero
protegê-la.
— Impedi-la de
conhecê-lo não é proteção.
— Por acaso é uma
autoridade em crianças? — A voz dele revelava descrença.
— Tenho alguma
experiência.
— É mesmo?
Pouco importava o tom
crítico na voz dele, pensou Lua.
— Não gosta que
outras pessoas vejam o que lhe aconteceu, e então se esconde. Só vê aquilo que
quer. Não tive filhos, mas gostaria de ter. Fui professora na escola da
embaixada por vários anos, e cursei psicologia infantil na universidade. Além
disso, sou a mais velha de cinco irmãos. Não acha suficiente?
Com raiva, afastou-se
da grade e já ia entrar, quando Arthur segurou-a pelo braço. Os dois foram
envolvidos pelas dobras das cortinas que flutuavam ao vento.
Lua mal conseguia
respirar, e seu coração batia acelerado. Ele era um homem grande, forte, e os
dedos circundavam-lhe o braço, impedindo-a de mover-se. Estava consciente da
proximidade dele, do perfume masculino, do corpo que quase tocava o dela,
fazendo-a estremecer.
Ele era misterioso,
intenso.
O que a atraía não
era a solidão dele, nem a amargura. Era o homem que sofrera muito, mas
sobrevivera. Que não deixara ninguém se aproximar. Lua viu a sombra da
cabeça dele aproximar-se e soube que desejava beijá-la. E quase desejou que o
fizesse.
— Você tem perfume
de... liberdade — sussurrou ele, cada célula do corpo gritando que era um
homem, e que ela era uma linda mulher.
Mesmo sabendo que
devia fazer anos que ele não estava com uma mulher, que devia afastar-se
depressa, Lua foi incapaz de resistir ao desejo de tocá-lo. Erguendo a mão,
colocou-a no peito forte.
A respiração dele
ficou ofegante, e num gesto brusco afastou-se, subitamente consciente do que
acontecia.
— Não quero sua
piedade, e isto é errado.
Ele afastou-a e Lua
perdeu o equilíbrio, enquanto Arthur entrava depressa, desaparecendo na casa,
de volta à sua caverna escura.
Queria dizer-lhe que
a última coisa que sentira em seus braços era piedade. Mas ele já se fora.
Era um tolo. O
abandono da mulher não lhe ensinara nada, ou não teria tocado Lua . Sentado na
escrivaninha, o sol nascendo atrás dele, Arthur bateu nas teclas, fazendo uma
porção de erros, até desistir, empurrando o teclado. Recostando-se na cadeira
de couro, fechou os olhos, e quase pôde sentir a maciez daquele corpo que tanto
desejava tocar.
E que homem não
desejaria fazê-lo, pensou. O corpo de Lua era curvilíneo, e ela tinha um jeito
de andar que quase o enlouquecia. Ele sacudiu a cabeça. Seria mais difícil do
que tinha pensado, e sabia que a lembrança de tocá-la seria tão torturante
quanto a própria ação.
Era a babá, lembrou a
si mesmo. Fora contratada para ajudá-lo.
Levantando-se, foi
até a janela. Que Deus me ajude, pensou. Lua era o sonho de qualquer homem. E
estaria ali por muito tempo, provocando-o.
Atrás dele, o e-mail
soava, o fax gemia, e Arthur ignorava tudo, os olhos presos à faixa de areia lá
embaixo. Havia pegadas no solo úmido, e imediatamente soube que eram de Lua.
Será que levaria Sofia para longos passeios, à procura de conchas? Será que
Sofia gostaria dali? E do quarto, dos brinquedos? Ou ficaria assustada, com
medo? As perguntas surgiam-lhe na mente, e teve que admitir que não sabia nada
sobre a filha de quatro anos. Mas Sofia era tudo que tinha no mundo, e faria o
possível para que nada lhe faltasse.
Exceto você mesmo,
disse uma voz interior, e a culpa dominou-o.
E se nada daquilo
fosse suficiente, e traumatizasse a menina? Era tão pequena, inocente. No
momento, não tinha dúvidas de que Lua cuidaria de tudo. Era encantadora, mesmo com
aquela língua afiada, e suspeitava que Sofia acabaria se divertindo, depois de
ter passado de um amigo para outro, após o acidente. Tanto ele quanto Melanie
não tinham família. Soubera da morte da mulher por um policial, e cinco dias
depois um advogado, executor do testamento de Melanie, o informara da
existência da filha. Com a permissão dele, Katherine Davenport tirara Sofia do
abrigo do Serviço Social, e tomara providências para arranjar uma babá, e
trazer a menina para a ilha. Era tudo tão frio, formal. Melanie escondera a
criança até a tragédia acontecer. Mas ele tivera tempo suficiente para pensar
na mulher que havia conhecido num baile de caridade, e com quem se casara, sete
anos atrás.
Melanie tinha sido linda, como uma boneca de porcelana, embora durante o
casamento tivesse ficado cada vez mais egoísta e exigente, gostando muito mais
do estilo de vida que tinham do que dele. Agora percebia que ela gostava das
empregadas e cozinheiros, e que quanto mais lhe dava, mais queria. Até que ele
desejara ter filhos, parar de viajar o tempo todo. Ela havia discutido e
reclamado, até Arthur ceder. Devia ter engravidado naquela noite selvagem, na
praia, na véspera do acidente. Apesar disso, quando o acidente o privara da
beleza que a atraíra, Melanie o abandonara. Não a culpava por tê-lo feito.Ela
era frágil, imatura, e ele por certo não fora mais o mesmo homem. Nem por fora,
nem por dentro. Tentava imaginar o que Melanie dissera a Sofia sobre ele, mas
logo desistiu. Não fazia diferença. Suspirando, voltou a trabalhar no
computador, até que uma voz suave soou no interfone:
— Muito
trabalho sem comer, deixa o sr. Aguiar de mau humor.
Arthur sacudiu a
cabeça, com um meio sorriso. Apertando o botão do interfone, perguntou:
— Preparou alguma
coisa? — O estômago dele roncou, diante da perspectiva de uma refeição.
— Sim. E Micael
não vai conseguir comer tudo. — Houve uma pausa, mas logo ela continuou: —
Nunca fui capaz de cozinhar para menos de seis pessoas. Ainda bem que gosto de
sobras, não é?
Arthur imaginou se
alguma vez ela ficava de mau humor, e sentiu-se grato por não mencionar a noite
anterior. Não queria a piedade dela. Já aprendera o suficiente a esse respeito
com a ex-mulher. Não podia esquecer o modo como ela se encolhia, cada vez
que tentava tocá-la. Sacudindo a cabeça, pensou em como fora tolo na noite
anterior. Mas parte dele queria saber se Lua sentira o mesmo calor que o
invadira. Nem Melanie conseguira provocar uma reação como aquela, e ele a
amara.
— Estou com
fome.
Lua tentou não
gostar tanto da voz dele, nem lembrar-se de como parecera sedutor na tênue luz
da varanda. Mais uma vez se perguntava como podia sentir tanta atração por um
homem que nunca vira, embora soubesse que a aparência, o dinheiro ou o charme,
pouco tinham a ver com o que o corpo dizia. E o corpo de Arthur Aguiar dizia
muita coisa. Lua só esperava que o seu não entendesse...
— Vou levar aí em
cima — disse, por fim. Ele detestava estar isolado ali.
— Obrigado —
agradeceu.
Um momento de
silêncio, e então ela disse:
— Recebi seu e-mail
com as regras.
— E estou certo de
que quer fazer algum comentário — retrucou ele, e quase podia ver como ela
cerrava os lábios, furiosa.
— Alguma delas é
negociável?
— Por exemplo?
— Esta sobre não ir
ao terceiro andar. Como a empregada vai fazer a limpeza?
— Ela conhece
as regras. Avisa antes de subir, e eu simplesmente vou para outra parte da
casa.
— Entendo. —
Arthur ouviu-a suspirar. — Essa comunicação pelo interfone é tão impessoal.
— É assim que tem que
ser Lua.
Lá embaixo, na
cozinha, ela encostou a testa na parede. Cabeça dura.
— Nada é imutável,
sabia?
— Não. — Ele parou
por alguns instantes. — O que você quer, Lua?
A irritação dele
atingiu-a, provocando uma reação imediata. O que queria? Apenas uma vida
normal. Antes que Sofia chegasse. Mas sabia que Arthur continuaria resistindo.
— Nada — respondeu,
suavemente. — Acabarei dando um jeito de contornar as regras. Especialmente
esta, de não andar pela casa à noite. Gosto de tomar chocolate quente, olhando
as estrelas.
— Então deve estar se
sentindo em casa aqui.
— É verdade.
Arthur queria que ela
se sentisse à vontade, especialmente com Sofia chegando na manhã seguinte.
Estava desesperado para que ficasse, especialmente depois que Katherine
Davenport ligara naquela manhã, dizendo que não encontrara uma substituta
qualificada. Arthur achou que estava zangada com ele, e não estava fazendo
muito esforço.
Alguns minutos mais
tarde, ouviu uma batida na porta. Arthur aproximou-se, espiando pelo visor. Ela
era mesmo persistente.
— Deixe aí mesmo.
Ela mostrou a língua
para a porta.
— Encantadora, srta.
Blanco — disse, secamente. Lua sorriu, sem jeito, e colocou a bandeja de lado.
— Sobre a noite
passada...
Arthur gemeu,
baixinho, e apertou o botão do interfone, junto à porta. Foi errado tocá-la.
— Por quê? -ela
perguntou e ele piscou, surpreso.
— É a babá da minha
filha.
— Muito conveniente,
não é?
— O quê?
Ela recuou um passo,
diante do tom da voz dele.
— Bem, estou aqui,
sou mulher e...
— E linda demais.
Os lábios dela
apertaram-se, revelando toda a amargura que sentia. Quase desejou ter
cicatrizes, como Arthur. Pelo menos saberia que os homens não a desejavam só
pela beleza.
— Não é o que quis
dizer.
— Está imaginando há
quanto tempo não tenho uma mulher? —A voz rouca fez os joelhos dela fraquejarem.
— É claro que não!
— Mentirosa.
Ela cruzou os braços,
olhando para a porta.
— Ofender o outro é
uma atitude infantil.
— Desculpe-me.
— Esqueça.
— Está bem.
Mas Lua duvidava.
Especialmente depois que a evitara cuidadosamente, e depois a agarrara como se
fosse a tábua de salvação de um náufrago. Ainda assim, não podia ignorar a
eletricidade que os envolvera, o calor que percorrera seu corpo. E a vontade
que sentira de tocá-lo, de provar a força daquele corpo alto e rijo. Ele a
fizera sentir-se pequena, indefesa, e naqueles poucos segundos, protegida.
Não era algo que
pudesse esquecer facilmente.
— Se quiser
mais, é só pedir — disse ela, afastando-se e descendo a escada.
Arthur pegou a
bandeja, e admirou a enorme variedade de comidas: ovos, panquecas, salsichas,
bacon, café, torradas, geleia e biscoitos. Teria que correr mais alguns
quilômetros para queimar tudo aquilo, pensou, saboreando as delícias. E tentando
não pensar na mulher que as preparara.
Durante o resto do dia o contato entre eles foi mínimo. E Arthur
esperou, impaciente, que a noite chegasse. As sombras o protegiam e lhe davam
liberdade. Sentia-se como um vampiro, condenado à escuridão. A noite era sua
amiga, embora amasse o dia, o sol.
Agora olhava para a
mulher que dormia no sofá, com um livro aberto sobre o peito. Ele inclinou a
cabeça para ler o título. Crianças e Pensar. Mais uma vez, pensou em como Sofia
iria se apoiar nela, enquanto ele desejava confortá-la. Como queria abraçar a
filha, acariciá-la, saber tudo sobre ela, vê-la crescer e aprender. Mais uma
vez amaldiçoou Melanie por não ter lhe permitido compartilhar a vida de Sofia.
Então percebeu, com enorme pesar, que estava confiando em Lua, para amar a
filha no lugar dele.
Lua viu a balsa
chegar e a grade de segurança ser levantada. As pessoas começavam a sair do
barco, e ela procurou a garotinha na multidão, com a acompanhante que a traria
até ali. O que viu foi à criança mais linda que jamais vira, de cabelos
escuros, rosto angelical, agarrada à mão de Katherine Davenport.
Olhando para a
ex-colega de faculdade, Lua sorriu.
— Fico feliz
que você a tenha trazido. Katherine olhou para a garotinha e sorriu.
— Achei que alguém
familiar seria melhor do que um estranho.
Lua podia ver
as perguntas nos olhos de Katherine, desejando saber como iam as coisas com
Arthur Aguiar. Sem querer lhe dar qualquer indicação do que acontecera na noite
anterior, ficou grata ao ver que um homem se aproximava e pegava as malas de
Sofia .Lua acompanhou-o até o carro que Arthur lhe permitia usar, e ele colocou
as malas no banco de trás. Depois de pagá-lo, voltou para o par que a
aguardava. Lua ajoelhou-se e sorriu para Sofia. A garotinha enterrou o rosto na
saia de Katherine.
— Olá, sou Lua.
— Olá — respondeu a
garota, sem mostrar o rosto. Katherine afastou-se um pouco, forçando Sofia a
fitá-la. Lua sentou-se no chão, com as pernas dobradas sob o corpo, como se
tivessem todo o tempo do mundo.
Foi uma semana bem
difícil, não é?
— Sim.
— Bem, agora vou
cuidar muito bem de você, Sofia. — A menina ainda parecia pouco à vontade. — Eu
prometo. Sei fazer uma porção de coisas. Podemos brincar na praia, andar de
bicicleta, e talvez andar a cavalo.
A ideia pareceu
agradar, e Lua rezou, baixinho, para que ainda se lembrasse de como cavalgar.
— Seu pai tem
três cavalos, e não acho que façam muito exercício. Teremos que cuidar deles.
— Viu meu pai?
A esperança na voz da
menina fez o coração de Lua se apertar.
— Sim. Ele é
muito simpático.
— Mamãe disse que ele
foi ferido.
— Sua mãe tinha
razão. Foi sim. Mas agora está bem. — Não pretendia assustar a menina com
detalhes assustadores. — Só não gosta que fiquem olhando para ele.
As sobrancelhas de
Sofia ergueram-se, como se estivesse tentando entender por que não queria que
olhassem para ele, se estava bem. Lua pretendia adiar o encontro dos dois, até
que Sofia estivesse acomodada e à vontade.
— Então, está
pronta para ver sua nova casa?
Sofia assentiu,
mastigando a ponta do suéter que vestia. Lua estendeu a mão, tirando-o
delicadamente da boca da menina.
— Fale. Não consigo
ouvir o que está dentro da sua cabeça. A garotinha quase sorriu.
— Sim, senhora.
— Vai adorar, Sofia.
É um castelo, como o da Cinderela.
— Verdade?
— Verdade.
Lua levantou-se e estendeu a mão. Sofia olhou
para Katherine, suspirou, e então segurou a mão de Lua, que mal pôde esconder a
alegria.
— Não gostaria
de vir até a casa? — convidou. — Tomar um café, antes de pegar a outra balsa? —
Algumas pessoas já passavam por elas, a caminho do barco.
Katherine sacudiu a
cabeça.

























Nenhum comentário:
Postar um comentário