quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

A Bela e a Fera (Capítulo 5)




          —Acho melhor deixar que se conheçam melhor. Telefono mais tarde.

— Gostaria que fizesse isso — e, baixando a voz, completou: — Já que não há nada de temporário neste trabalho, e sabe bem disso.


— Ele precisa dela, Lua.



— Eu sei, mas... — Olhando para baixo, viu que a garotinha as observava, curiosa. Lua trocou um olhar com Katherine, indicando que poderiam conversar melhor ao telefone. Katherine sorriu, e inclinou-se para beijar Sofia.


A criança passou os braços em volta do pescoço de Kat, agarrando-se com força por alguns instantes. O coração de Lua apertou-se. Como devia sentir-se insegura e amedrontada, sendo Katherine a única pessoa que conhecia.


Kat acariciou as costas da menina, dizendo que a amava muito, e logo viria visitá-la. Sofia soluçou, correndo para Lua, assim que Katherine soltou-a. Com um sorriso, Lua levou a criança até o carro, colocando-a no banco da frente. Depois de acomodar-se atrás do volante ligou o motor.


— Pronta?


Sofia olhou-a com os olhos muito azuis e assentiu, mordiscando a ponta do suéter. Lua percebeu o brilho das lágrimas e inclinou-se, abraçando-a e sussurrando:


— Tudo vai dar certo, querida. Sei que está com medo. — Os dedinhos delicados apertaram-na com força.


— Quero ir para casa.


Os olhos de Lua encheram-se de lágrimas. A menina parecia tão triste e perdida.


— Vou levá-la para casa, e será uma grande aventura descobri-la aos poucos. Não acha que vai ser divertido?


Sofia deu de ombros, e Lua acariciou os cabelos brilhantes. Tinham um longo caminho a percorrer juntas, e imaginou por quanto tempo ficaria ali. Ou se algum dia desejaria partir. Pois percebia que estava começando a amar aquela garotinha perdida.

No instante em que a casa apareceu na frente delas, Lua percebeu que Sofia prendia a respiração, maravilhada, esticando o pescoço para ver melhor. Lua dirigiu pela estrada de terra, cheia de lombadas, até chegar à garagem, esperando que a vista da praia, do estábulo enorme e do grande jardim atraíssem Sofia. E aconteceu, especialmente por causa do escorregador e do balanço, que não se encontravam ali no dia anterior. Parando o carro, desligou o motor.


— Vá, experimente — encorajou ela, e Sofia abriu a porta. Lua apressou-se a ajudá-la a descer, e logo Sofia corria para os brinquedos. Os brinquedos eram grandes c sólidos, e Lua sorriu, ao ver Sofia escorregar uma, duas, três vezes, sem cansar da brincadeira. A menina correu para o balanço, experimentando-o, até ver a caixa de areia, cheia de brinquedos. Ela sentiu a presença de alguém, e viu que Micael se aproximara.


—  Vou levar as malas para cima — disse, estendendo a mão para pegar as chaves. Ela entregou-as, mas não se mexeu.


—  Ela parece com ele — disse, suavemente. E Lua observou Sofia, imaginando o quanto seria parecida com o pai.


De repente, Sofia saiu correndo para eles e parou em frente de Micael, observando-o atentamente. Lua percebeu que ela imaginava que Micael fosse o pai. Ela apresentou-os, e viu o sorriso da criança desaparecer.


— Como vai, senhorita? — Micael agachou-se na frente da menina, e os velhos joelhos estalaram.


Sofia olhou com surpresa os jeans reforçados nos joelhos.


— Dói?


— Não. Só faz barulho.


— Meu pai foi ferido. Muito ferido.


—  Sim, meu bem.


— Conhece o meu pai?


— Claro que sim.


— Acha que ele vai gostar de mim? — A voz dela tremia, e Micael trocou um olhar com Lua.


— Sim, princesa. Ele vai gostar muito.


— Mas onde ele está?

Micael endireitou-se e olhou para as janelas, no alto do castelo.


— Lá em cima.


Sofia ficou ao lado dele, olhando para o alto.


Arthur olhou para a filha, e amou-a de imediato. Ele a vira brincando, os cabelos tão escuros quanto os dele, os olhos da mesma cor. Ela também tinha o mesmo sorriso. Como devia ter sido difícil para Melanie, olhá-la todos os dias, e vê-lo à sua frente, pensou, aproximando-se mais da janela.


Sofia ergueu o bracinho e acenou, e Arthur desejou descer correndo para apertá-la nos braços, dizer o quanto a amava, como iria protegê-la e como estava feliz em tê-la ali. Mas não podia. Mantendo-se um pouco afastado, acenou, o olhar desviando-se para Lua. Ela também olhou, apoiando-se no carro, de braços cruzados. O olhar dela dizia tudo, que deveria vir e brincar com a filha, e acima de tudo, indagava como podia resistir à criança? Será que ela não entendia como gostaria de descer? Como gostaria de estar ali, abraçando-a e fazendo com que esquecesse toda dor? E que ficar longe dela o feria mais do que à própria filha?


Micael já estava entrando com as malas, e Lua dizia algo para a menina. E quando Sofia segurou a mão de Lua, quase esmurrou a janela. Devia ser eu. Sofia, era filha dele.

Lua  preparou o almoço para Sofia antes de subirem para o quarto, imaginando que depois de ver as coisas maravilhosas que o pai preparara perderia a fome. Depois, disse à menina que o quarto dela era em frente ao seu, do outro lado do corredor, e que poderia ir até lá quando quisesse, de dia ou à noite. Enquanto desfazia as malas, Sofia examinava os brinquedos, o enorme urso de pelúcia, quase do tamanho dela. Ao subir na cama, apertou urso contra o peito.


— Está com medo? É muito alta? — Sofia olhou-a diretamente.


— Não. — Ela parecia deslumbrada, e bocejou. — E tão lindo.


— É mesmo. Eu gostaria de ter tido um quarto assim, quando era da sua idade.


— E que tipo de quarto você tinha?


— Era pequeno e escuro — respondeu Lua , continuando a arrumar as coisas.

         —E eu o dividia com minhas irmãs. — Ela não disse que o telhado era de zinco, e que gotejava forte quando chovia, muitas vezes sobre a cama.

— Irmãs?


—  Tenho três  mas duas são casadas — explicou. Eram mais novas do que ela, pensou, sentindo uma pontada de inveja. Ela quase se casara com o homem errado. Um homem que a desejara apenas pelo rosto bonito, pelos títulos de beleza, como o ouvira dizer ao padrinho. Queria mostrá-la como um troféu, e continuar com a amante.


Lua  fechou os olhos, afastando o sentimento de humilhação. Chay fora o ponto culminante de uma vida em que todos viam apenas sua aparência. Sabia que também era responsável por isso, já que participara de muitos concursos, desejando usar os prêmios para conseguir uma vaga na faculdade, e construir uma carreira. Ainda assim, acreditara que ele a amava, e quando o sonho se desmanchara, tinha perdido muito mais do que o noivo. Perdera a auto-estima, já que Chay lhe dera tudo o que podia desejar, como se desejasse comprá-la. Tudo, menos amor.


—  Talvez possa conhecê-las — disse, por fim. — Minha irmã, Ana, tem uma filha pouco mais velha do que você. — Quando não teve resposta, Lua virou-se e viu Sofia adormecida, agarrada ao enorme urso. Sorrindo, ajeitou um travesseiro sob a cabeça da menina, tirou-lhe os sapatos, e cobriu-a com um acolchoado. Sofia suspirou, mostrando que o dia fora longo demais para uma menina tão pequena.


Beijando-a na testa, desligou as luzes e saiu, fechando a porta. Imediatamente sentiu a presença dele e virou-se para a escadaria, no fundo do corredor. Na semi-escuridão podia ver-lhe as pernas, dos joelhos para baixo, e a mão, apoiada no corrimão.


— Ela está bem?


—  Sim, mas está exausta, e adormeceu.


—  Obrigado, Lua.


— Por nada. Ela quer vê-lo.


—  Sabe que não posso fazer isso.


—  Ela precisa do pai.


—  Lua... Por favor.

A dor, por negar a si mesmo o contato com a filha, expressava-se na voz dele. Naquele instante, Lua percebeu o quanto aquele homem era solitário, e como devia ser difícil ter duas mulheres naquela casa, depois de ter andado por ali, quando e como desejasse, por quatro anos.


— Ela está se sentindo sozinha e com medo. Tudo é novo para ela, e embora esteja adorando as novidades, ainda quer vê-lo.


— Mas não pode. Não quero amedrontá-la ainda mais. E não sei nada sobre garotinhas, ou como cuidar delas. Mas você sabe.


Ela não queria discutir, não com Sofia tão perto.


—  Não vou ficar aqui para sempre — retrucou, entrando no próprio quarto e fechando a porta.


Arthur suspirou. Ela continuaria ali por quanto tempo ele desejasse, e só de pensar que poderia partir, ficava nervoso. Ele observou as pequenas luzes junto ao chão, que iluminavam o corredor, e a porta do quarto da filha. Não queria que nenhuma das duas o visse, mas a vontade de ver a filha foi mais forte. Descendo os últimos degraus, atravessou o corredor e abriu a porta do quarto de Sofia, entrando silenciosamente. Bem devagar, aproximou-se da cama, olhando a criança adormecida. Parecia tão inocente, tão indefesa. E era tão pequena.


Estendendo a mão, tocou uma mecha de cabelos, e então, incapaz de resistir, acariciou o rosto macio com as costas da mão. A pele era macia, fresca. Ela era linda, e o coração de Arthur apertou-se. Queria tomá-la nos braços, beijá-la.


— Papai?


A palavra quase o fez chorar.


— Sim, princesa, estou aqui. Volte a dormir.


Sofia mexeu-se na cama e Arthur cobriu os ombros delicados, carinhosamente.


— O papai ama você — sussurrou.


Meio adormecida, Sofia segurou a mão dele. Por um instante, Arthur ficou imóvel, temendo que ela percebesse as fundas cicatrizes no pulso, mas já voltara a dormir.


Não querendo arriscar-se a encontrar Lua, pensou em usar a passagem secreta, mas a raiva foi mais forte. Afinal, aquela era a casa dele. Saindo do quarto, subiu a escada, e já estava quase chegando em cima, quando Lua abriu a porta e saiu depressa. Apressando o passo, ele penetrou na escuridão, sabendo que os olhos dela levariam alguns segundos para ajustar-se à falta de luz.

— Sr. Aguiar — chamou, suavemente. Imediatamente sentiu-lhe o perfume e estremeceu.

        —  Sr. Aguiar. 
— Ele parou.


— Estou ignorando você. Indo embora. Será que não entendeu?


— Psiu. — Ela aproximou-se. — É claro que percebi.


— Não dê nem mais um passo.


—  O que vai fazer? Me despedir? — perguntou, sabendo que ele não poderia fazê-lo.


— Há outros modos de fazê-la ficar longe — disse, ao vê-la desobedecer, aproximando-se ainda mais.


— Por exemplo?


— Deixá-la ver meu rosto.


— Não tem uma boa impressão a meu respeito, não é? — sussurrou ela, olhando fixamente para a sombra, onde ele se escondia.


Havia compaixão na voz dela, talvez piedade.


— Pelo contrário. Tenho uma impressão boa demais. Arthur deu um único passo, aproximando-se perigosamente, e o calor do corpo alto penetrou instantaneamente as roupas dela. O desejo de apoiar-se nele era muito forte, e o modo como seu corpo respondia ao dele fazia imaginar que já o conhecera em outra vida, outros tempos. Era como uma fome, um desejo incontrolável. Mas não podia. Já fora usada antes por sua beleza, e ali estava um homem que desejava usá-la, novamente, só que desta vez como uma barreira entre ele e a filha.


—  E tem raiva por precisar de mim. Desejaria que fosse outra pessoa, não é?


—  Sim — sibilou ele, como uma serpente pronta para o ataque. — Vejo seu rosto, perfeito, e sinto cada cicatriz, como se tivesse acontecido ontem. — A voz dele tornou-se ainda mais baixa. — E então sinto como sua respiração acelera quando me aproximo, sinto seu corpo pulsar, como agora e...


As palavras saíram antes que pudesse ele controlá-las.


— Faz você sentir-se como um homem, não um eremita. — Ele gelou, como se cada músculo do corpo estivesse paralisado. O desejo de tocá-lo era tão forte, que mal podia resistir.

— Arthur...  - ela chamou por ele aproximando-se

A palavra pareceu despertá-lo. Virando-se depressa, subiu a escada, de volta ao santuário.


A porta batendo foi como um tiro no escuro, fazendo-a recuar contra a parede, cobrindo o rosto.


Agora ele não viria mais para a luz. Estragara tudo.



***



Lua sentia-se muito mal. Na verdade, não tão mal assim, admitiu, parando no saguão do térreo, com as mãos nos quadris. Mas mal o bastante para ficar acordada, vagando por aquela casa enorme à meia-noite. Como gostaria de ter mantido a boca fechada! Esse era o resultado de ter sido criada numa casa cheia de crianças, onde precisava elevar a voz para que prestassem atenção nela. Agora queria uma chance para se desculpar, mas Arthur não respondia ao interfone.


Muito bem. Era um homem teimoso, embora soubesse que ele dissera a verdade. Sabia que despertava nele sentimentos e emoções esquecidos, já que vivendo recluso no castelo não tinha a chance de sentir coisa alguma, havia muito tempo. Agora ela estava ali, e também a filha, o que tornava o isolamento ainda mais intenso e difícil de suportar.


Mas ele também fazia Lua sentir emoções perturbadoras. Ao lado dele sentia-se ainda mais feminina, mais desejada. E de repente percebeu como evitara tudo isso depois que rompera o noivado com Chay. Mas estar perto de Arthur provocava sensações que nunca experimentara antes. O coração batia forte, a pele ficava quente, rosada, e um desejo intenso de que a tocasse surgia de forma incontrolável.


Só não tinha certeza se gostava disso.


Chay quase destruíra sua autoconfiança, e ela aceitara o emprego na Wife Incorporated para afastar-se dele. Será que queria envolver-se com outro homem que dava tanta importância às aparências? Porque era exatamente o que Arthur fazia.


Suspirando, acendeu a luz da biblioteca e entrou. Era um lugar muito bonito. As paredes eram cobertas de estantes repletas de livros, havia um sofá e uma poltrona diante da lareira e uma escrivaninha num dos cantos. Era um aposento masculino, pensou, sentindo o perfume de tabaco de boa qualidade que vinha do cachimbo, apoiado no cinzeiro de cristal. O olhar dela percorreu a sala, parando na porta.


— Sr. Aguiar?


ideia de vê-lo era ao mesmo tempo amedrontadora e excitante. Não houve resposta .


Olhando a sala, tentou imaginá-lo ali. Será que se sentia confortável, rodeado por livros? Será que eram os únicos companheiros que tinha, além de Micael? Um sentimento de piedade a invadiu, mas Lua afastou-o depressa, sabendo que Aguiar detestaria isso.


 ...CONTINUA!...

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