Arthur sorriu,
adorando quando o sotaque dela ficava mais acentuado. Tinha curiosidade em
saber mais sobre o passado de Lua.
— Então, por
que entrou nos concursos de beleza? Além do óbvio.
Quantas vezes ela
ouvira isso? Era óbvio que uma mulher tão linda participasse de concursos. Era
óbvio que os homens a desejavam apenas pela beleza.
— Que
importância tem isso?
— Só queria saber
mais sobre a mulher que cuida da minha filha. E também estou curioso para saber
como saiu da fazenda e foi parar no Departamento de Estado.
Tinha o direito de
saber, admitiu Lua. Se fosse filha dela, faria o mesmo.
— Minha família é
muito pobre. Minha mãe percebeu que poderia conseguir algum dinheiro se me
levasse a concursos, ou para trabalhar em comerciais. Comecei a trabalhar
quando era pouco mais velha do que Sofia. — Ela deu de ombros. — Quando cresci
o suficiente para entender, percebi que era um negócio impiedoso, com uma
competição acirrada e injustiças. E decidi participar de concursos que me
proporcionassem o melhor prêmio em dinheiro, ou bolsas de estudos, para poder
ir para a universidade, e deixar a fazenda.
—Admirável
Ela franziu a testa,
tentando vê-lo melhor. Ele continuava parado entre duas portas abertas, uma que
levava à frente da casa e outra que conduzia à escada, na parte de trás. A
tentação de acender as luzes era grande, mas ela prometera, e costumava manter
a palavra.
— Estava tentando
fugir das suas raízes?
— Não. Só não
queria ser mulher de um fazendeiro, com cinco filhos, economizando cada centavo
e rezando todas as noites para que a chuva viesse, ou a colheita se perderia.
A amargura na voz
dela o surpreendeu,
— Sinto
muito...
— Não sinta. — Ela
suspirou. — Foi difícil, mas não sabíamos que éramos pobres. Todos à nossa
volta viviam do mesmo modo. — Ela riu, mas o som não revelava alegria. — Hoje,
mamãe e papai estão bem. Mas mamãe ainda remenda roupas velhas, economiza e
aproveita todas as sobras de comida. — Lua sacudiu a cabeça. — Parece que
algumas coisas nunca mudam.
Pegando o pires de
leite, foi para sala, sem saber se Arthur estaria ali quando voltasse. Ou se
iria voltar. Ao colocar o pires no chão de pedra, perguntou a Sofia se
gostaria de chocolate quente. O sorriso da menina foi à resposta, e ao voltar
para a cozinha, Lua percebeu que ele continuava lá.
Parte dela vibrou de
prazer, vendo que ele não se fora. A outra a lembrou de Chay e das lições que
aprendera sobre os homens.
Pegando o pacote de
chocolate, virou-se para ele.
— Quer uma
xícara?
— Não, obrigado.
Como aquelas simples
palavras podiam ser tão sedutoras no escuro? E como podiam fazer de conta que
nada acontecera entre eles? Era mais fácil agir assim na semi-escuridão.
Lua pigarreou,
tentando afastar as lembranças eróticas.
— E seus pais, sua família?
— Sofia é tudo que
tenho. Meus pais morreram, com seis meses de diferença, antes de eu me casar.
Como devia ter sido
triste viver sozinho, imaginou, sabendo que ele detestaria sua piedade.
— Mais uma razão para
conhecê-la melhor, Arthur. Logo estarão sozinhos.
Arthur não podia
sequer imaginar aquilo. Para ele, Lua tinha que ficar. E a tentação de tê-la
por perto era algo com que teria de se acostumar. Não podia deixar que Sofia o
visse. A menina já tinha uma imagem dele, e aos quatro anos de idade jamais
poderia pensar no que o acidente fizera com ele. Ela o rejeitaria, e era
exatamente isso que Arthur queria evitar. Melanie não se importara de disfarçar
o choque e a rejeição, quando as ataduras tinham sido retiradas. Com uma
criança não poderia ser diferente. Lua talvez tivesse um pouco mais de
tolerância, mas não podia arriscar. Não depois de tê-la abraçado. Não depois do
beijo que o tocara tão profundamente. A rejeição seria insuportável.
Era em Sofia que
devia pensar, e não nas reações do seu corpo, no desejo por uma mulher. Era
melhor continuar no escuro e ficar distante de Lua. Para evitar o perigo.
— E a família da sua
esposa?
— Ex-esposa — corrigiu ele. — Ela também não tinha família. Pelo
menos, nunca mencionou ninguém.
Lua assentiu,
curiosa sobre a mulher com quem ele se casara, mas sem querer tocar feridas
profundas. O tom da voz dele era suficiente para mostrar como ainda estava
magoado. O mais importante era que Sofia não tinha parentes e jamais saberia o
que era ter avós, ou primos. Isso a deixou ainda mais decidida a fazer Arthur
sair da escuridão. Os dois precisavam um do outro. Não tinham mais ninguém.
Depois de preparar
duas canecas de chocolate, dirigiu-se para a porta.
— Por que deixou de
ensinar os filhos de diplomatas e foi trabalhar na Wife Incorporated?
Ela virou-se para o
lugar onde Arthur continuava escondido nas sombras.
— Por causa de um
homem — respondeu, com sinceridade. — Um homem que amei de verdade.
Arthur sentiu a dor e
a angústia na voz dela, e isso o feriu profundamente.
— Lua. O
que ele fez?
— Mentiu, enganou,
traiu. E o pior... Ele me queria só pela aparência. Como vê, Arthur —
continuou, amarga —, temos mais em comum do que você imagina.
— Não concordo.
— Não? Então
não me quer apenas por minha beleza?
— Droga, Lua, é muito
diferente. Não tem ideia do que é ser tão medonho.
— Não, não tenho. Mas
sei muito bem o que é ser julgada pela aparência.
De repente, Sofia
apareceu correndo na sala de jantar, e Lua parou.
— Está falando com
papai? Ele está aqui? Posso vê-lo? — Ela aproximou-se, e ao olhar para a
cozinha, Lua soube que ele tinha desaparecido.
— Sim, querida, era
ele.
A menina ergueu o
olhar, abraçando a gatinha contra o peito.
— Ele não quer me
ver? — Os lábios tremiam, e os olhos castanhos encheram-se de lágrimas. O
coração de Lua apertou-se. Como Arthur podia fazer aquilo com a filha?

























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