sábado, 23 de fevereiro de 2013

A Bela e a Fera (Capítulo 8)




Arthur sorriu, adorando quando o sotaque dela ficava mais acentuado. Tinha curiosidade em saber mais sobre o passado de Lua.



—  Então, por que entrou nos concursos de beleza? Além do óbvio.


Quantas vezes ela ouvira isso? Era óbvio que uma mulher tão linda participasse de concursos. Era óbvio que os homens a desejavam apenas pela beleza.


—  Que importância tem isso?


— Só queria saber mais sobre a mulher que cuida da minha filha. E também estou curioso para saber como saiu da fazenda e foi parar no Departamento de Estado.


Tinha o direito de saber, admitiu Lua. Se fosse filha dela, faria o mesmo.


— Minha família é muito pobre. Minha mãe percebeu que poderia conseguir algum dinheiro se me levasse a concursos, ou para trabalhar em comerciais. Comecei a trabalhar quando era pouco mais velha do que Sofia. — Ela deu de ombros. — Quando cresci o suficiente para entender, percebi que era um negócio impiedoso, com uma competição acirrada e injustiças. E decidi participar de concursos que me proporcionassem o melhor prêmio em dinheiro, ou bolsas de estudos, para poder ir para a universidade, e deixar a fazenda.

         —Admirável 

Ela franziu a testa, tentando vê-lo melhor. Ele continuava parado entre duas portas abertas, uma que levava à frente da casa e outra que conduzia à escada, na parte de trás. A tentação de acender as luzes era grande, mas ela prometera, e costumava manter a palavra.


— Estava tentando fugir das suas raízes?


—  Não. Só não queria ser mulher de um fazendeiro, com cinco filhos, economizando cada centavo e rezando todas as noites para que a chuva viesse, ou a colheita se perderia.


A amargura na voz dela o surpreendeu,


—  Sinto muito...


— Não sinta. — Ela suspirou. — Foi difícil, mas não sabíamos que éramos pobres. Todos à nossa volta viviam do mesmo modo. — Ela riu, mas o som não revelava alegria. — Hoje, mamãe e papai estão bem. Mas mamãe ainda remenda roupas velhas, economiza e aproveita todas as sobras de comida. — Lua  sacudiu a cabeça. — Parece que algumas coisas nunca mudam.


Pegando o pires de leite, foi para sala, sem saber se Arthur estaria ali quando voltasse. Ou se iria voltar. Ao colocar o pires no chão de pedra, perguntou a Sofia se gostaria de chocolate quente. O sorriso da menina foi à resposta, e ao voltar para a cozinha, Lua percebeu que ele continuava lá.

Parte dela vibrou de prazer, vendo que ele não se fora. A outra a lembrou de Chay e das lições que aprendera sobre os homens.


Pegando o pacote de chocolate, virou-se para ele.


—  Quer uma xícara?


— Não, obrigado.


Como aquelas simples palavras podiam ser tão sedutoras no escuro? E como podiam fazer de conta que nada acontecera entre eles? Era mais fácil agir assim na semi-escuridão.


Lua  pigarreou, tentando afastar as lembranças eróticas.


— E seus pais, sua família?


— Sofia é tudo que tenho. Meus pais morreram, com seis meses de diferença, antes de eu me casar.


Como devia ter sido triste viver sozinho, imaginou, sabendo que ele detestaria sua piedade.


— Mais uma razão para conhecê-la melhor, Arthur. Logo estarão sozinhos.


Arthur não podia sequer imaginar aquilo. Para ele, Lua tinha que ficar. E a tentação de tê-la por perto era algo com que teria de se acostumar. Não podia deixar que Sofia o visse. A menina já tinha uma imagem dele, e aos quatro anos de idade jamais poderia pensar no que o acidente fizera com ele. Ela o rejeitaria, e era exatamente isso que Arthur queria evitar. Melanie não se importara de disfarçar o choque e a rejeição, quando as ataduras tinham sido retiradas. Com uma criança não poderia ser diferente. Lua talvez tivesse um pouco mais de tolerância, mas não podia arriscar. Não depois de tê-la abraçado. Não depois do beijo que o tocara tão profundamente. A rejeição seria insuportável.


Era em Sofia que devia pensar, e não nas reações do seu corpo, no desejo por uma mulher. Era melhor continuar no escuro e ficar distante de Lua. Para evitar o perigo.


— E a família da sua esposa?


—  Ex-esposa — corrigiu ele. — Ela também não tinha família. Pelo menos, nunca mencionou ninguém.


Lua  assentiu, curiosa sobre a mulher com quem ele se casara, mas sem querer tocar feridas profundas. O tom da voz dele era suficiente para mostrar como ainda estava magoado. O mais importante era que Sofia não tinha parentes e jamais saberia o que era ter avós, ou primos. Isso a deixou ainda mais decidida a fazer Arthur sair da escuridão. Os dois precisavam um do outro. Não tinham mais ninguém.


Depois de preparar duas canecas de chocolate, dirigiu-se para a porta.


— Por que deixou de ensinar os filhos de diplomatas e foi trabalhar na Wife Incorporated?


Ela virou-se para o lugar onde Arthur continuava escondido nas sombras.


— Por causa de um homem — respondeu, com sinceridade. — Um homem que amei de verdade.


Arthur sentiu a dor e a angústia na voz dela, e isso o feriu profundamente.


—   Lua. O que ele fez?


— Mentiu, enganou, traiu. E o pior... Ele me queria só pela aparência. Como vê, Arthur — continuou, amarga —, temos mais em comum do que você imagina.


— Não concordo.


—  Não? Então não me quer apenas por minha beleza?


— Droga, Lua, é muito diferente. Não tem ideia do que é ser tão medonho.


— Não, não tenho. Mas sei muito bem o que é ser julgada pela aparência.


De repente, Sofia apareceu correndo na sala de jantar, e Lua parou.


— Está falando com papai? Ele está aqui? Posso vê-lo? — Ela aproximou-se, e ao olhar para a cozinha, Lua soube que ele tinha desaparecido.


— Sim, querida, era ele.


A menina ergueu o olhar, abraçando a gatinha contra o peito.


— Ele não quer me ver? — Os lábios tremiam, e os olhos castanhos encheram-se de lágrimas. O coração de Lua apertou-se. Como Arthur podia fazer aquilo com a filha?

...CONTINUA!...

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