domingo, 24 de fevereiro de 2013

A Bela e a Fera (Capítulo 9)






         — Sim, querida, ele quer. Só que não pode vê-la... ainda. 

— Quando vai poder?


A tristeza na voz da menina era tão intensa que os olhos de Lua se encheram de lágrimas.


— Logo — sussurrou, imaginando se Arthur Aguiar sairia do esconderijo para ficar com sua princesinha.




Arthur ouviu o caminhão, a campainha da porta, e imaginou por que o entregador não deixara os pacotes na escada, como de costume. E então, entendeu. Lua. Os boatos deviam correr depressa na cidade, e todos estavam curiosos para ver a bela mulher que estava no castelo, com a fera medonha que se escondia na escuridão, pensou Arthur, com um sorriso amargo. Mas Lua não se importava com admiradores.


Ela mesma dissera que os homens se interessavam apenas por sua beleza. Até mesmo o homem a quem amara. O homem que a enganara, traíra, magoara-a a ponto de fazê-la abandonar o emprego na embaixada. E que era um idiota, decidiu Arthur, e não merecia uma mulher como Lua Blanco. Ela era carinhosa, generosa, e merecia um homem que a apreciasse. Ele vira a humilhação nos lindos olhos verdes, a vergonha e a raiva, que não tinham desaparecido. Há quanto tempo teria acontecido? Quem seria ele?


Olhando para o pátio, logo abaixo, viu Lua sentada à mesa de piquenique, observando Sofia brincar e desenhando alguma coisa num bloco. Quando o entregador se aproximou, deixou o bloco de lado e assinou o recibo de entrega, indicando com um gesto os degraus dos fundos, onde poderia deixar os pacotes. Mas o entregador não foi embora. Em vez disso, sentou-se ao lado de Lua. Bem perto. Fitando-a intensamente.


Arthur rangeu os dentes quando ela riu de algo que o rapaz dissera, e ofereceu-lhe café da garrafa térmica que estava sobre a mesa. 

Será que ele não tinha mais nada para entregar?

Micael apareceu. Arthur pensou que a expressão sisuda do amigo seria suficiente para afastar o rapaz. Mas se enganou. Lua serviu café a Micael , e embora ele tomasse o café depressa, olhando para o entregador com ar muito sério, o jovem, muito bonito, e no mínimo cinco anos mais jovem do que Lua, pareceu não perceber. Arthur teve vontade de abrir a janela e gritar, dizendo ao sujeito para ir embora. Estava com ciúme. Louco de ciúme, admitiu, passando a mão pela cicatriz do rosto.


Ótimo. Era exatamente o que precisava.


Não parecia fazer diferença o fato e não tinha direito de ter ciúme de Lua. Ela não lhe pertencia. Tinha apenas Sofia, e sem Lua, até mesmo cuidar dela seria difícil. Lua, Micael, Sofia... Eles eram a família que vivia na casa. Ele era apenas uma sombra. Um eco do homem que fora um dia. Oh, Deus, como a vida dele havia se transformado naquilo?


Nunca pensara em si mesmo como um covarde, e era contra sua natureza agir assim. Só estava se escondendo para poupá-las. Não queria ser fonte de pesadelos para nenhuma delas.


Uma batida soou na porta atrás dele, e Arthur desviou o olhar da janela. Sabia que era a empregada, a Sra. Campello pedindo a ela que esperasse um minuto, entrou no hall da escada de serviço e dirigiu-se ao segundo andar. A empregada não demoraria muito, pensou, enquanto atravessava os corredores, parando entre o quarto de Sofia e o de Lua. Tinha vontade de entrar no quarto de Lua e espiar, mas não seria honesto. Entrando no quarto de Sofia, recolheu alguns brinquedos e checou a estrutura da cama alta. Logo ouviu risadas novamente e espiou pela janela. Sofia corria em círculos, enquanto a gatinha tentava pegar os laços dos tênis da menina. Agarrando a cortina, amassou o tecido delicado com força. Daria tudo para estar ali, rindo, com a filha, sorrindo para Lua, sentindo o sol no rosto. De repente, Lua virou-se, o olhar dirigido exatamente para onde ele estava.


Mesmo à distância, ele viu a fúria nos olhos verdes. Por que estava tão zangada? Era ela quem estava flertando com o entregador. O rapaz acompanhou o olhar dela e rapidamente devolveu-lhe a xícara, tocando o boné num gesto de despedida ao partir.

Lua  deu as costas para Arthur, despediu-se do entregador e sorriu para Sofia, que engatinhava ao lado da gatinha. Era bom vê-la sorrir outra vez. A menina andava triste, desde aquela noite em que o pai estivera tão perto, na cozinha, mas se recusara a vê-la. Os sentimentos de Sofia tinham sido feridos, e quando perguntara por que o pai não a queria, a raiva de Lua tinha aumentado.

Só que isso não a impedia de desejá-lo, cada vez que ouvia a voz dele.


Tinha que parar de pensar nele, lembrou-se, mais uma vez. Chay a desejara pela beleza, e agora Arthur fazia o mesmo. Era melhor cuidar de Sofia , ensiná-la a tratar da gatinha, que agora usava uma coleira verde, com um sininho que tilintava enquanto tentava agarrar os cordões dos tênis.


O novo membro da família agora tinha um nome. Serabi. A própria Sofia o escolhera, assistindo a desenhos na tevê.


Lua tornou a pegar o bloco e concluiu o desenho que fizera de Sofia. Desenhar fora seu hobby, quando era mais jovem, e embora ainda adorasse essa arte, nunca mais desenhara depois de deixar a faculdade. A empregada estava limpando a casa, e ela tinha pouco a fazer, além de cuidar de Sofia. Sorrindo, viu a menina colocar a gatinha dentro do casaco. O amor que sentia por aquela criança crescia cada vez mais.


É tudo que tem, disse uma vozinha que não queria ouvir. Então, por que a semana passada tinha sido tão feliz, tão diferente dos dias ao lado de Chay? Afastando esses pensamentos perturbadores, voltou a desenhar, até que o vento forte obrigou-as a entrar em casa.


Assim que entraram, Serabi correu para investigar todas as portas e frestas dentro de casa. Sofia já ia segui-la quando Lua a impediu.


— Espere. Primeiro você vai se lavar, enquanto eu preparo o jantar.


Sofia gemeu dramaticamente, mas obedeceu, entrando no banheiro.


— Vou inspecionar suas mãos, senhorita.


—  Sim, senhora — respondeu a menina, e Lua sorriu, pegando uma frigideira e os ingredientes para fazer o macarrão cabelo-de-anjo especial que Sofia gostava. Quando a menina voltou do banheiro, Lua mandou-a para a sala para procurar a gatinha e assistir a um desenho. O zumbido do interfone ecoou na cozinha. Virando-se, ela apertou o botão.

— Chamou, meu senhor?

— Está perdendo seu talento para a comédia nessa cozinha. — Ela sorriu, sentindo que a raiva diminuía.


—  Incrível, não é?


— Por que aquele entregador demorou tanto?


Será que estava com ciúme?, pensou Lua.


— Estava apenas sendo gentil.


— É mesmo?


—  Sim. É um bom rapaz, que está estudando muito para terminar o mestrado.


— Pouco me importa o que faz. Não quero estranhos perto da minha filha.


— Entendo. Mas acho que Micael e eu podemos protegê-la muito bem.


— Pense um pouco, Lua. Sou um homem muito rico, e não quero que ninguém sequestre minha filha por causa de um resgate milionário.


— Não acha que está exagerando?


— Não, não acho.


— Então o que isso significa? Que não podemos ter visitas? Nem sair de casa? Espera realmente que Sofia se transforme numa eremita, sem motivo nenhum? — Ela ergueu o indicador, como se ele estivesse a sua frente. — Pois me deixe dizer-lhe uma coisa. Isso não vai acontecer! Não enquanto eu estiver por aqui. Ela precisa ir para a escola, brincar com outras crianças. Sente falta dos amigos, da casa e da mãe, e não se esqueça, sr. Aguiar, fui contratada para cuidar dela. E se não confia em mim para protegê-la — disparou, num tom decidido —, trate de descer e cuidar dela sozinho!


— Espere, eu... — a voz dele ressoou no interfone. — Está zangada comigo?


Ela inclinou-se, falando bem perto do aparelho:


—  Não. Estou furiosa. Feriu os sentimentos de Sofia na outra noite. Estava a alguns metros dela e recusou-se a vê-la. — Lua respirou fundo. — Ela sentiu-se rejeitada, ferida. E acha que não a quer aqui.


...CONTINUA!...

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