Lua Blanco ergueu o
olhar para o castelo de pedras cinzentas e imaginou o que encontraria lá
dentro. O príncipe encantado ou o dragão?
O dragão
provavelmente, imaginou, se fossem verdadeiros os boatos que ouvira do pessoal
da cidade, na viagem de balsa até a linda ilha. Será que Arthur Aguiar sabia
como era temido?, pensou, observando as pedras enormes e as janelas em arco,
enquanto o táxi entrava no caminho que conduzia à entrada. A enorme estrutura
tinha até ameias, além da torre principal.
Lua via
apenas solidão por toda parte.
— Senhora... —
disse o motorista, ao parar em frente da casa enorme. — Tem certeza de que é
este o lugar aonde quer ir?
Por que todos na
ilha perguntavam a mesma coisa, como se estivesse indo para a forca? Aguiar era
apenas um homem, nada mais.
— Sim, tenho
certeza, sr. Pinkney — respondeu, sem olhar para o motorista de meia-idade.
— O sr.
Aguiar não é um tipo simpático, como deve saber.
— Não é de admirar,
já que todos agem como. se ele fosse capaz de morder, não acha? — Dessa vez ela
fitou-o diretamente, erguendo uma sobrancelha.
O homem corou e
então olhou novamente para a casa.
— Os boatos devem
ter algum fundamento — resmungou, saindo do carro para pegar a bagagem de Lua .
Ela também saiu do
carro e acompanhou-o, subindo os degraus da entrada.
Como uma serva do rei, havia sido contratada para ajudar a filha de
quatro anos de Arthur Aguiar a acostumar-se a viver ali
A morar com um
homem recluso, que vivia trancado num castelo, longe de qualquer contato
humano. Pelo jeito, teria um bocado de trabalho, já que, de acordo com os
boatos, ninguém pusera os pés na casa, além dos entregadores, nos últimos
quatro anos. Lua sentiu pena da garotinha, que acabara de perder a mãe e
tinha sido afastada do pai. Lua estava ali para conhecer o local, antes
de a menina chegar.
O sr. Pinkney
colocou as malas no chão. Ao virar-se para pagá-lo, Lua percebeu que
escrevia algo num pedaço de papel. Assim que lhe entregou o dinheiro, o homem
estendeu-lhe o papel.
— Aqui está
meu telefone. Se precisar de alguma coisa é só chamar.
O gesto deixou-a
comovida, mas não era necessário.
— Ele não é
um monstro, sr. Pinkney.
— E sim. Grita com
qualquer um que pisar nas terras dele, e quase fez picadinho do pobre garoto
que entrega as compras da mercearia. Detesto pensar no que pode fazer com a
senhora. — E quando Lua olhou-o com firmeza, o motorista olhou novamente
para o castelo e suspirou. — Esta casa foi construída muitos anos atrás, por um
homem que a ergueu para a noiva. Ela queria viver como uma princesa, e ele
procurou atender esse desejo. Trouxe cada pedra do continente, e muitas coisas
vieram da Inglaterra ou da Irlanda, pelo que ouvi dizer. Ela morreu antes que a
casa estivesse terminada, ou antes, que o rapaz tivesse chance de casar-se com
ela.
Que história
triste, pensou ela, mas logo ergueu o queixo.
— Está agindo
como se a casa fosse assombrada, ou amaldiçoada.
O sr. Pinkney não
disse nada, olhando as pesadas portas duplas de madeira, como se fossem a
entrada de uma caverna. Que bobagem, pensou Lua, erguendo a aldrava de bronze
para bater na porta. Era a cabeça de um dragão. Bem, sr.Aguiar , se queria manter
as pessoas longe daqui, tem feito um bom trabalho. Ela bateu e esperou.
Imediatamente
ouviu-se uma voz, soando no interfone à direita da porta.
— Entre.
A voz era profunda,
um tanto rouca, e sem querer, Lua estremeceu, invadida por um sentimento de
apreensão.
— Entende o que eu disse? — perguntou Pinkney.
Bobagem — retrucou ela com firmeza, abrindo a porta e entrando. Um
pequeno abajur, colocado sobre uma linda mesa de madeira entalhada, iluminava
parcialmente o saguão. Ela colocou a bolsa e a valise de mão no chão e
virou-se, vendo que o sr. Pinkney empurrava apressadamente as malas para dentro
e se afastava para os degraus. Mas o gesto não o impediu de dar uma boa olhada
na casa, pensou Lua. Ela procurou o interruptor e logo o local ficou
completamente iluminado. O homem encolheu-se e recuou ainda mais.
— Me ligue,
se precisar — repetiu, com o sotaque ainda mais acentuado.
A atitude dele,
assim como a das pessoas que encontrara na cidade, mostrando-se chocadas ao
vê-la chegar, e fazendo advertências, era terrivelmente injusta e infundada, já
que falavam de um homem que nem conheciam. De repente, Lua sentiu-se fortemente
motivada a proteger o sr. Aguiar.
— Não será preciso,
obrigada — agradeceu, fechando a porta. Suspirando,Lua virou-se, e o
coração dela deu um salto, ao perceber que as luzes se apagaram e uma sombra
aparecia no topo da escada de madeira entalhada.
— Sr. Aguiar?
— Sim — a voz grave
ressoou, chegando até ela.
— Olá. Sou...
— Lua blanco , eu
sei — interrompeu ele. — Quase 23 anos, solteira, cursou a universidade, criada
em Charleston, ex-miss Carolina do Sul, miss condado de Jasper, miss Festival
do Camarão.
Ela podia jurar que
havia um tom de zombaria na voz dele.
— Será que
esqueci alguma coisa?
Bem, então era ele
o misterioso recluso, pensou, olhando para a sombra na escada.
— Esqueceu de
dizer: ex- funcionária do Departamento de Estado, professora da escola da
embaixada, e lingüista, fluente em italiano,português , frances, farsi e galês.
— Mas sabe
cozinhar? — perguntou ele, num galês impecável.
— Não estaria aqui, se não soubesse. — Ela cruzou os braços e observou a figura masculina, alta e forte, delineada pela luz que vinha do abajur, e que permitia ver apenas a calça preta e os sapatos
A mão dele
apoiava-se no corrimão, e um anel com sinete, de ouro, brilhava refletindo a
luz. Que mãos grandes, pensou Lua, mas logo falou: — Será que tenho um site com
todas as minhas informações e não estou sabendo? — O que mais saberia sobre
ela?
— As
telecomunicações são um recurso fascinante.
— É verdade. Mas
não precisa dizer o número do meu sutiã, nem quando perdi os pompons de chefe
da torcida quando estava com Grady Benson.
— Foi só isso
que perdeu? — O tom grave pareceu percorrer cada centímetro da espinha de Lua,
e isso a irritou profundamente.
— Procure na
Internet — disparou, não gostando nem um pouco de saber como ele estava
informado a seu respeito. E como sabia pouco sobre ele. Não tivera chance de
descobrir muita coisa. Sabia apenas que vivia recluso, depois de um acidente
que o desfigurara, que havia se divorciado, e que, em poucos dias, receberia
uma filha que jamais vira antes. Era estranho, muito estranho, pensou,
começando a pegar as malas.
— Onde vou ficar?
— No segundo andar.
Ela começou a andar
para a escada.
— Deixe as malas e
me acompanhe.
Lua soltou as
malas, carregando a valise de mão e a bolsa ao acompanhá-lo. Ele andava vários
passos à frente, mantendo-se sempre no escuro. O andar dele era firme, elegante
à luz do corredor, que vinha de pequenas lâmpadas junto ao rodapé. Tudo que
podia ver era o contorno dos ombros, na camisa imaculadamente branca, ombros
muito largos e fortes. Ele parou diante de uma porta e abriu-a depressa.
— Aqui — disse, e
continuou andando. Ela parou do lado de fora do quarto.
— E o quarto
da sua filha?
Ele hesitou por uma
fração de segundo.
— Do outro lado do
corredor. —Ele já estava quase no segundo lance de escadas. — Vou pedir para
trazerem suas malas.
— Pensei que
morasse sozinho.
— E moro. Tenho um
caseiro, que mora num chalé, nos fundos do terreno, e uma empregada, que vem às
segundas-feiras.
Não acha que
precisamos conversar sobre a chegada da sua filha? — gritou Lua, já que ele não
parara de andar.
— Ela chegará
dentro de dois dias. Encontre-a na balsa. — Ele subia cada degrau num passo
deliberadamente lento. Lua imaginou se sentiria dores.
— Não virá comigo?
— Foi para isso que
a contratei, srta Blanco.
— Mas não
pode apenas me entregar sua filha sem... Uma porta bateu com Força no topo da
escada. Ele voltara ao refúgio nas sombras.
— Muito bem — disse
ela, aproximando-se da escada e olhando para cima. Tudo que podia ver era um
corredor e uma grande porta de madeira polida, com uma maçaneta de bronze. Como
ele podia ser tão indiferente? Sofia era quase um bebê, com apenas quatro anos.
E será que ele estava mesmo tão desfigurado? Ou seria apenas vaidoso, e não
queria vir para a luz? Apesar de tudo, era com Sofia que estava preocupada e,
endireitando os ombros, subiu a escada e bateu na porta.
— Acho que
precisamos ter uma conversa, sr. Aguiar. Agora.
Nenhuma resposta.
— Posso ser muito
persistente quando tenho um objetivo, o senhor já sabe.
— Vá embora, srta.
Blanco. Avisarei quando precisar, e se precisar, da senhorita.
— É claro,
meu senhor, como fui tola em pensar que realmente se importa com sua filha —
disse, num tom seco, e virou-se para ir embora. Teimoso, rude, dominador. O pai
dela teria acertado um soco nos dentes dele só por tratar uma mulher daquele
jeito.
Lua entrou no
quarto e parou, sem fôlego. Pelo jeito o dragão tinha muito bom gosto. A
decoração era luxuosa, o tapete, as cortinas, os quadros, tudo combinava,
criando uma atmosfera relaxante e sensual. Uma enorme cama com quatro colunas
ficava num dos cantos, coberta por uma colcha e almofadas, nos mesmos tons de
vinho, cinza e branco que decoravam o aposento. Havia uma escrivaninha no
estilo Rainha Anne com um computador colocada perto da parede, e algumas
poltronas bem femininas posicionadas perto da lareira. Perto das três janelas
enormes havia um banco forrado, coberto com almofadas bordadas em ponto cruz, o
que o tornava ainda mais convidativo. A esquerda ficava o closet, tão grande
que jamais conseguiria enchê-lo. Mas bem que gostaria de tentar, pensou Lua,
observando o banheiro moderno, com a maior banheira que já vira. Deixando a
bolsa e a valise sobre a cama, atravessou o corredor e entrou no quarto de
Sofia.
Sem palavras, parou
na porta. Pelo jeito, dinheiro não era problema para o sr. Aguiar. O quarto
parecia um sonho, em tons de branco e rosa, com uma casa de bonecas antiga,
muitos brinquedos e uma cama colocada num dos cantos. O dossel tinha cortinas
de cetim, que desciam enfeitando a cabeceira trabalhada. A história da Princesa
e a Ervilha surgiu-lhe na mente, já que a garotinha teria de usar o banco para
subir na cama alta. Ele pensara em tudo, reconheceu Lua, vendo os armários e
gavetas cheios de roupas de tamanhos diferentes. Ele não sabia mesmo nada sobre
a filha, percebeu ela, voltando para o quarto, abrindo a valise e pegando o
arquivo que Katherine Davenport, dona da Wife Incorporated, lhe entregara dois
dias atrás.
O rosto da
garotinha de cabelos escuros aparecia na foto, revelando o sorriso doce e os
olhos muito azuis. Atirando a foto de lado com um suspiro, foi até o banco
junto à janela, afastando as cortinas ao sentar-se. Dali podia ver o continente
e as outras ilhas da costa da Carolina do Sul. O vento de outubro varria a
praia, balançando os galhos dos enormes carvalhos que cercavam a costa. As
ondas rugiam contra o cais, escurecendo a areia. O céu estava carregado,
escuro, quase encoberto pela neblina densa. Um dia perfeito para encolher-se no
sofá, ler um livro e sonhar. Com o que sonharia uma garotinha? Especialmente
uma que tivesse perdido a mãe e estivesse chegando a uma ilha isolada para
encontrar o pai, que nem sequer conhecia.
Ela sonharia com um
príncipe para mantê-la segura, pensou Lua . Não com um dragão que soltava fogo
na direção de qualquer um que tentasse se aproximar de sua caverna.
Arthur apoiou as
costas na porta e fechou os olhos, a imagem de Lua presa em sua mente,
recusando-se a deixá-lo em paz. Era a criatura mais linda que já vira. O tipo
de mulher que fazia as cabeças virarem, os homens tropeçarem e as mulheres
morrerem de inveja. E só de fitar os lindos olhos verdes dourados, cada
cicatriz parecia doer como se fosse recente. Era como colocar um doce apetitoso
na frente de um homem que morria de fome. Oferecer-lhe a iguaria, da qual nunca
poderia sentir o gosto.

























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