sábado, 16 de fevereiro de 2013

A Bela e a Fera (Capítulo 1)




Lua Blanco ergueu o olhar para o castelo de pedras cinzentas e imaginou o que encontraria lá dentro. O príncipe encantado ou o dragão?


O dragão provavelmente, imaginou, se fossem verdadeiros os boatos que ouvira do pessoal da cidade, na viagem de balsa até a linda ilha. Será que Arthur Aguiar sabia como era temido?, pensou, observando as pedras enormes e as janelas em arco, enquanto o táxi entrava no caminho que conduzia à entrada. A enorme estrutura tinha até ameias, além da torre principal.


Lua  via apenas solidão por toda parte.


— Senhora... — disse o motorista, ao parar em frente da casa enorme. — Tem certeza de que é este o lugar aonde quer ir?


Por que todos na ilha perguntavam a mesma coisa, como se estivesse indo para a forca? Aguiar era apenas um homem, nada mais.


— Sim, tenho certeza, sr. Pinkney — respondeu, sem olhar para o motorista de meia-idade.


— O sr. Aguiar  não é um tipo simpático, como deve saber.


— Não é de admirar, já que todos agem como. se ele fosse capaz de morder, não acha? — Dessa vez ela fitou-o diretamente, erguendo uma sobrancelha.


O homem corou e então olhou novamente para a casa.


— Os boatos devem ter algum fundamento — resmungou, saindo do carro para pegar a bagagem de Lua .


Ela também saiu do carro e acompanhou-o, subindo os degraus da entrada.


Como uma serva do rei, havia sido contratada para ajudar a filha de quatro anos de Arthur Aguiar a acostumar-se a viver ali


A morar com um homem recluso, que vivia trancado num castelo, longe de qualquer contato humano. Pelo jeito, teria um bocado de trabalho, já que, de acordo com os boatos, ninguém pusera os pés na casa, além dos entregadores, nos últimos quatro anos. Lua  sentiu pena da garotinha, que acabara de perder a mãe e tinha sido afastada do pai. Lua  estava ali para conhecer o local, antes de a menina chegar.


O sr. Pinkney colocou as malas no chão. Ao virar-se para pagá-lo, Lua  percebeu que escrevia algo num pedaço de papel. Assim que lhe entregou o dinheiro, o homem estendeu-lhe o papel.


—  Aqui está meu telefone. Se precisar de alguma coisa é só chamar.


O gesto deixou-a comovida, mas não era necessário.


—  Ele não é um monstro, sr. Pinkney.


— E sim. Grita com qualquer um que pisar nas terras dele, e quase fez picadinho do pobre garoto que entrega as compras da mercearia. Detesto pensar no que pode fazer com a senhora. — E quando Lua  olhou-o com firmeza, o motorista olhou novamente para o castelo e suspirou. — Esta casa foi construída muitos anos atrás, por um homem que a ergueu para a noiva. Ela queria viver como uma princesa, e ele procurou atender esse desejo. Trouxe cada pedra do continente, e muitas coisas vieram da Inglaterra ou da Irlanda, pelo que ouvi dizer. Ela morreu antes que a casa estivesse terminada, ou antes, que o rapaz tivesse chance de casar-se com ela.


Que história triste, pensou ela, mas logo ergueu o queixo.


—  Está agindo como se a casa fosse assombrada, ou amaldiçoada.


O sr. Pinkney não disse nada, olhando as pesadas portas duplas de madeira, como se fossem a entrada de uma caverna. Que bobagem, pensou Lua, erguendo a aldrava de bronze para bater na porta. Era a cabeça de um dragão. Bem, sr.Aguiar , se queria manter as pessoas longe daqui, tem feito um bom trabalho. Ela bateu e esperou.


Imediatamente ouviu-se uma voz, soando no interfone à direita da porta.


— Entre.


A voz era profunda, um tanto rouca, e sem querer, Lua estremeceu, invadida por um sentimento de apreensão.


— Entende o que eu disse? — perguntou Pinkney.

Bobagem — retrucou ela com firmeza, abrindo a porta e entrando. Um pequeno abajur, colocado sobre uma linda mesa de madeira entalhada, iluminava parcialmente o saguão. Ela colocou a bolsa e a valise de mão no chão e virou-se, vendo que o sr. Pinkney empurrava apressadamente as malas para dentro e se afastava para os degraus. Mas o gesto não o impediu de dar uma boa olhada na casa, pensou Lua. Ela procurou o interruptor e logo o local ficou completamente iluminado. O homem encolheu-se e recuou ainda mais.
—  Me ligue, se precisar — repetiu, com o sotaque ainda mais acentuado.


A atitude dele, assim como a das pessoas que encontrara na cidade, mostrando-se chocadas ao vê-la chegar, e fazendo advertências, era terrivelmente injusta e infundada, já que falavam de um homem que nem conheciam. De repente, Lua sentiu-se fortemente motivada a proteger o sr. Aguiar.


— Não será preciso, obrigada — agradeceu, fechando a porta. Suspirando,Lua  virou-se, e o coração dela deu um salto, ao perceber que as luzes se apagaram e uma sombra aparecia no topo da escada de madeira entalhada.


— Sr. Aguiar?


— Sim — a voz grave ressoou, chegando até ela.


— Olá. Sou...


— Lua blanco , eu sei — interrompeu ele. — Quase 23 anos, solteira, cursou a universidade, criada em Charleston, ex-miss Carolina do Sul, miss condado de Jasper, miss Festival do Camarão.


Ela podia jurar que havia um tom de zombaria na voz dele.


—  Será que esqueci alguma coisa?


Bem, então era ele o misterioso recluso, pensou, olhando para a sombra na escada.


— Esqueceu de dizer: ex- funcionária do Departamento de Estado, professora da escola da embaixada, e lingüista, fluente em italiano,português , frances, farsi e galês.


— Mas sabe cozinhar? — perguntou ele, num galês impecável.

— Não estaria aqui, se não soubesse. — Ela cruzou os braços e observou a figura masculina, alta e forte, delineada pela luz que vinha do abajur, e que permitia ver apenas a calça preta e os
 sapatos

A mão dele apoiava-se no corrimão, e um anel com sinete, de ouro, brilhava refletindo a luz. Que mãos grandes, pensou Lua, mas logo falou: — Será que tenho um site com todas as minhas informações e não estou sabendo? — O que mais saberia sobre ela?


— As telecomunicações são um recurso fascinante.


— É verdade. Mas não precisa dizer o número do meu sutiã, nem quando perdi os pompons de chefe da torcida quando estava com Grady Benson.


—  Foi só isso que perdeu? — O tom grave pareceu percorrer cada centímetro da espinha de Lua, e isso a irritou profundamente.


— Procure na Internet — disparou, não gostando nem um pouco de saber como ele estava informado a seu respeito. E como sabia pouco sobre ele. Não tivera chance de descobrir muita coisa. Sabia apenas que vivia recluso, depois de um acidente que o desfigurara, que havia se divorciado, e que, em poucos dias, receberia uma filha que jamais vira antes. Era estranho, muito estranho, pensou, começando a pegar as malas.


— Onde vou ficar?


— No segundo andar.


Ela começou a andar para a escada.


— Deixe as malas e me acompanhe.


Lua  soltou as malas, carregando a valise de mão e a bolsa ao acompanhá-lo. Ele andava vários passos à frente, mantendo-se sempre no escuro. O andar dele era firme, elegante à luz do corredor, que vinha de pequenas lâmpadas junto ao rodapé. Tudo que podia ver era o contorno dos ombros, na camisa imaculadamente branca, ombros muito largos e fortes. Ele parou diante de uma porta e abriu-a depressa.


— Aqui — disse, e continuou andando. Ela parou do lado de fora do quarto.


—  E o quarto da sua filha?


Ele hesitou por uma fração de segundo.


— Do outro lado do corredor. —Ele já estava quase no segundo lance de escadas. — Vou pedir para trazerem suas malas.


— Pensei que morasse sozinho.


— E moro. Tenho um caseiro, que mora num chalé, nos fundos do terreno, e uma empregada, que vem às segundas-feiras.

Não acha que precisamos conversar sobre a chegada da sua filha? — gritou Lua, já que ele não parara de andar.
— Ela chegará dentro de dois dias. Encontre-a na balsa. — Ele subia cada degrau num passo deliberadamente lento. Lua imaginou se sentiria dores.


— Não virá comigo?


— Foi para isso que a contratei, srta Blanco.


—  Mas não pode apenas me entregar sua filha sem... Uma porta bateu com Força no topo da escada. Ele voltara ao refúgio nas sombras.


— Muito bem — disse ela, aproximando-se da escada e olhando para cima. Tudo que podia ver era um corredor e uma grande porta de madeira polida, com uma maçaneta de bronze. Como ele podia ser tão indiferente? Sofia era quase um bebê, com apenas quatro anos. E será que ele estava mesmo tão desfigurado? Ou seria apenas vaidoso, e não queria vir para a luz? Apesar de tudo, era com Sofia que estava preocupada e, endireitando os ombros, subiu a escada e bateu na porta.


— Acho que precisamos ter uma conversa, sr. Aguiar. Agora.


Nenhuma resposta.


— Posso ser muito persistente quando tenho um objetivo, o senhor já sabe.


— Vá embora, srta. Blanco. Avisarei quando precisar, e se precisar, da senhorita.


—  É claro, meu senhor, como fui tola em pensar que realmente se importa com sua filha — disse, num tom seco, e virou-se para ir embora. Teimoso, rude, dominador. O pai dela teria acertado um soco nos dentes dele só por tratar uma mulher daquele jeito.


Lua  entrou no quarto e parou, sem fôlego. Pelo jeito o dragão tinha muito bom gosto. A decoração era luxuosa, o tapete, as cortinas, os quadros, tudo combinava, criando uma atmosfera relaxante e sensual. Uma enorme cama com quatro colunas ficava num dos cantos, coberta por uma colcha e almofadas, nos mesmos tons de vinho, cinza e branco que decoravam o aposento. Havia uma escrivaninha no estilo Rainha Anne com um computador colocada perto da parede, e algumas poltronas bem femininas posicionadas perto da lareira. Perto das três janelas enormes havia um banco forrado, coberto com almofadas bordadas em ponto cruz, o que o tornava ainda mais convidativo. A esquerda ficava o closet, tão grande que jamais conseguiria enchê-lo. Mas bem que gostaria de tentar, pensou Lua, observando o banheiro moderno, com a maior banheira que já vira. Deixando a bolsa e a valise sobre a cama, atravessou o corredor e entrou no quarto de Sofia.

Sem palavras, parou na porta. Pelo jeito, dinheiro não era problema para o sr. Aguiar. O quarto parecia um sonho, em tons de branco e rosa, com uma casa de bonecas antiga, muitos brinquedos e uma cama colocada num dos cantos. O dossel tinha cortinas de cetim, que desciam enfeitando a cabeceira trabalhada. A história da Princesa e a Ervilha surgiu-lhe na mente, já que a garotinha teria de usar o banco para subir na cama alta. Ele pensara em tudo, reconheceu Lua, vendo os armários e gavetas cheios de roupas de tamanhos diferentes. Ele não sabia mesmo nada sobre a filha, percebeu ela, voltando para o quarto, abrindo a valise e pegando o arquivo que Katherine Davenport, dona da Wife Incorporated, lhe entregara dois dias atrás.


O rosto da garotinha de cabelos escuros aparecia na foto, revelando o sorriso doce e os olhos muito azuis. Atirando a foto de lado com um suspiro, foi até o banco junto à janela, afastando as cortinas ao sentar-se. Dali podia ver o continente e as outras ilhas da costa da Carolina do Sul. O vento de outubro varria a praia, balançando os galhos dos enormes carvalhos que cercavam a costa. As ondas rugiam contra o cais, escurecendo a areia. O céu estava carregado, escuro, quase encoberto pela neblina densa. Um dia perfeito para encolher-se no sofá, ler um livro e sonhar. Com o que sonharia uma garotinha? Especialmente uma que tivesse perdido a mãe e estivesse chegando a uma ilha isolada para encontrar o pai, que nem sequer conhecia.


Ela sonharia com um príncipe para mantê-la segura, pensou Lua . Não com um dragão que soltava fogo na direção de qualquer um que tentasse se aproximar de sua caverna.




Arthur apoiou as costas na porta e fechou os olhos, a imagem de Lua presa em sua mente, recusando-se a deixá-lo em paz. Era a criatura mais linda que já vira. O tipo de mulher que fazia as cabeças virarem, os homens tropeçarem e as mulheres morrerem de inveja. E só de fitar os lindos olhos verdes dourados, cada cicatriz parecia doer como se fosse recente. Era como colocar um doce apetitoso na frente de um homem que morria de fome. Oferecer-lhe a iguaria, da qual nunca poderia sentir o gosto.


CONTINUA!

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