domingo, 17 de fevereiro de 2013

A Bela e a Fera (Capítulo 2)




Mal podia tolerar a presença dela ali, em seu lar, seu santuário. Só saber que estava ali era o suficiente para deixá-lo louco, e queria estrangular Katherine Davenport por ter lhe mandado uma mulher tão linda. Será que Kat não percebia que não estivera perto de uma mulher desde o acidente? E até aquela manhã não tivera sequer uma referência, atém da palavra de Katherine, garantindo que encontrara alguém muito qualificado. Não tivera tempo de pesquisar o passado dela, e embora tivesse encontrado apenas parte dele, não havia fotos, embora tivesse imaginado como era, já que vencera tantos concursos de beleza. Ainda assim, era como se não desejasse mostrar o lindo rosto. Ele tinha uma boa razão para não mostrar o rosto. Mas qual seria a dela?


Aos 24 anos,  linda. Ele com seus 26 depois do acidente ficara horrível


Que droga! Ele fora muito claro ao pedir uma governanta para cuidar de Sofia. Pedira uma mulher, forte e saudável o suficiente para cuidar de uma garota de quatro anos, e que compreendesse que a responsabilidade de Sofia seria dela. Não podia deixar que Sofia o visse. Nunca. A criança fugiria dele, e Arthur sabia que não poderia suportar isso. Não outra vez. As pessoas fugiam dele por causa das cicatrizes que o desfiguravam. Não pretendia assustar uma criança.


Sofia. Arthur cerrou os punhos. Uma criança cuja existência ele ignorara até algumas semanas atrás, quando a ex-mulher morrera. Parecia que ele era a única pessoa no mundo que podia cuidar da menina.


Mais uma vez, amaldiçoou Melanie por não ter lhe dito que carregava um filho ao deixá-lo. Só Deus sabia como precisara disso, quatro anos antes. Algo para fazê-lo suportar as inúmeras cirurgias, a difícil recuperação e a dura realidade de que nada poderia ser feito para recuperar o corpo desfigurado.


Afastando-se da porta, Arthur pegou o telefone e discou um número, mal contendo a raiva.


— Wife Incorporated. Katherine Davenport.


—  Que droga,Kat, ela é linda! — De tirar o fôlego, acrescentou mentalmente, lembrando-se de cada curva do corpo perfeito, coberto pelo conjunto branco.

 Então saiu da sua toca por tempo suficiente para observá-la?

— Por que fez isso? Arthur ouviu-a suspirar.


— Lua  é uma das pessoas mais bondosas que conheço. E não fiz isso por você, meu bem. Foi por Sofia. Lua adora crianças, e já trabalhou com elas antes. Tem todas as qualificações que você queria. E culta, mas não a ponto de não conseguir se comunicar com uma criança. Além disso, é divertida e criativa. Dê-lhe uma chance.


— Não tenho escolha. Sofia chega dentro de dois dias.


— Vai dar certo, Arthur.


— Encontre outra pessoa, imediatamente. Eu não a quero aqui. -Houve uma pausa do outro lado, e ao falar, a voz de Katherine soou fria e brusca:


— Melanie devia ter lhe contado sobre Sofia, eu concordo, e se não tivesse jurado que não o faria, eu mesma teria dito. Mas quando ela disse que o deixara porque tinha se tornado frio e mesquinho, não pude acreditar. Agora, vejo que estava certa.


Arthur sentiu como se ela o tivesse esbofeteado.


— Melanie me abandonou porque não pôde suportar as conseqüências do acidente. Queria que eu fosse o mesmo de antes e que agisse como antes. Isso nunca vai acontecer. — Ele respirou fundo, antes de prosseguir: — Encontre outra pessoa. — E sem despedir-se, desligou. Só ao largar o fone percebeu como o segurara com força.


Deixando-se cair na poltrona de couro, atrás da escrivaninha, virou-a para a janela. O sol lutava para sair de trás das nuvens, refletindo-se no riacho, enquanto Arthur lutava para afastar as memórias dolorosas do acidente. A dor cortante, a reação de horror de Melanie quando tiraram as bandagens, a repugnância que não conseguira disfarçar. Sempre imaginara que ela estaria a seu lado, em qualquer situação, e ficara chocado ao vê-la partir. Devia ter imaginado que ela faria isso, quando se recusara a dividir a cama com ele, e até mesmo a tocá-lo depois do acidente. Ele podia ver a repulsa, cada vez que estendia a mão para ela. A noite anterior ao acidente tinha sido a última vez que sentira prazer e ternura com uma mulher.

E agora a mulher que fora eleita a mais bonita do Estado estava morando em sua casa. Não fazia diferença que isso tivesse ocorrido 2 anos antes. Ela ainda era capaz de parar o trânsito com sua beleza.


A batida foi tão suave que ele mal ouviu.


— Sr. Aguiar.


O som daquela voz doce e delicada tocou-o profundamente. E ele quase a odiou por isso.


— Eu já disse que a chamaria se...


— Pelo que me lembro, fui contratada para tomar conta da sua filha, não do senhor. Portanto, pode chamar o quanto quiser, meu senhor, e...


— Pago o seu salário.


— Sua mãe não lhe ensinou que é falta de educação interromper uma senhora?


— E você não aprendeu diplomacia, ao trabalhar no Departamento de Estado?


— Sim. Mas este não é um território estrangeiro, nem você pode pedir imunidade diplomática.


Lutando contra a vontade de sorrir, Arthur apoiou a cabeça na poltrona de couro.


—  O que você quer?


— Ah, chegamos ao estágio das negociações — zombou Lua. — Agora, a menos que a montanha de alimentos na geladeira e no freezer seja a sua noção de uma dieta balanceada, preciso planejar o cardápio.


— Muito bem. Pode pedir o que quiser.


Lua suspirou. Que homem difícil. Ela sacudiu a bandeja, fazendo a linda porcelana tilintar.


— Ouviu? São pratos. Com comida — completou.


— Deixe na porta. Ela piscou.


—  O quê?


—  Tenho certeza de que ouviu, Srta Blanco. A porta não é tão grossa.


—  Que teimoso — resmungou Lua.


— Deixe no chão e vá embora.


Lua colocou a bandeja junto à porta, e ao olhar para a madeira decidiu que o faria sair dali, de qualquer modo.

— Pelo jeito, vamos ter muitos problemas, sr. Aguiar.

—  Só se quebrar as regras.

— E quais são?


— Receberá ordens através de e-mails em seu computador.


— Meu Deus, que impessoal!


— É o único modo possível — disse ele, baixinho, ouvindo os passos dela afastando-se na escada.


Arthur esfregou a testa, a ponta dos dedos tocando as  cicatrizes, e praguejou, levantando-se e começando a andar de um lado para o outro. Cerrando os dentes, imaginou como iria sobreviver com aquela mulher linda andando pela casa.

Devia ter telefonado pedindo as compras, pensou Lua, enchendo o carrinho e tentando ignorar as pessoas que a observavam, os jovens, muito mais jovens do que os que pensaria em namorar, fitando-a intensamente. Ela sorriu docemente, um típico sorriso de passarela, admitiu, rindo baixinho. Alguns homens eram pescadores, e ainda usavam as botas de borracha da pescaria.


Checando a lista, Lua dirigiu-se ao caixa. Vai começar, pensou, vendo que as pessoas aproximavam-se de onde estava, como felinos. Um adolescente que varria o chão chegou mais perto. A vendedora parecia não ter pressa, fitando-a demoradamente, apesar da fila. Os clientes não tiravam os olhos dela. Não era de admirar que Aguiar não saísse de casa. O que teria acontecido com a hospitalidade do sul?


— Você é nova aqui? — perguntou a vendedora, uma loira que usava argolas enormes nas orelhas e mastigava chiclete.


—  Sim. É uma linda ilha — disse Lua. Era melhor deixá-los orgulhosos da terra onde viviam.


— Está no castelo, não é?


—  Sou a babá que o sr. Aguiar contratou.


— Babá?! — exclamaram várias pessoas ao mesmo tempo. Lua olhou ao redor, fitando um a um, todos que estavam  próximos.


— O sr. Aguiar está esperando a filha chegar, e estou aqui para cuidar dela.


— Pobre criança — disse uma velha senhora, num tom sombrio.


— Por quê? — perguntou Lua, embora soubesse a resposta.


—  Imagine ter um homem tão horrível como pai.


—  Conhece o sr. Aguiar? — perguntou Lua


— Não exatamente.


Esperando que sua expressão fosse da mais pura inocência, indagou:


— Então, como pode saber como ele é?


—  Ele nunca sai daquele lugar — disse a vendedora. — Não mostra o rosto há quatro anos. Nem mesmo Micael que mora lá, conseguiu vê-lo de perto.


Micael, Lua imaginou, devia ser o caseiro, que ainda não conhecera.


— Ele está desfigurado — gaguejou o jovem que embalava suas compras.


—  Se nunca o viu, como pode saber disso?


O garoto deu de ombros, como se fosse de conhecimento geral. Embora ninguém tivesse visto Aguiar.


— Não acho que a aparência seja importante — respondeu ela, tentando controlar-se, e detestando que as pessoas dessem tanta importância às aparências. Ela sabia, por experiência própria, como isso era injusto e preconceituoso, embora por motivos opostos. As mulheres recusavam-se a ser suas amigas, acreditando que se imaginava melhor do que elas. Os homens quase pisoteavam uns nos outros para aproximar-se, todos tentando levá-la para a cama, ou convidá-la para um acontecimento social, onde pudessem exibi-la como um troféu. Ninguém, nem mesmo o ex-noivo, conseguira ver além do rosto lindo que Deus lhe dera. E, aparentemente, ninguém queria ver além das cicatrizes de Arthur.

Tudo isso fazia Lua sentir um estranho impulso de defender um homem que nem conhecia. Era difícil manter o controle diante de tantos preconceitos.


— Coloque na conta dele, e mande entregar por volta das três — pediu, saindo depressa e sentindo que todos os olhares a acompanhavam.


Em vez de pegar um táxi para casa, resolveu acalmar-se, caminhando pela pitoresca cidadezinha. Mas as lembranças continuavam a atormentá-la. A mãe, arrastando-a para comerciais de tevê, desde bem pequena, os concursos, tudo que sempre detestara. E quando crescera, escolhia participar apenas dos que lhe interessavam, porque queria ir para a faculdade, e precisava do dinheiro.


Olhando em volta, viu as vitrines das pequenas lojas, os bancos de madeira espalhados por vários locais, turistas e moradores passeando e fazendo compras. Dois homens mais velhos sentavam-se junto ao cais, trocando histórias de pescaria. Lua sorriu, lembrando-se do avô, sentado na cadeira de balanço da varanda, esculpindo pequenos animais de madeira para que ela e os irmãos brincassem. Aliás, eram os únicos brinquedos que tinham. Uma vida simples, mas cheia de amor, pensou, com saudade do avô.


Ela respirou fundo, saboreando a brisa fria que vinha do mar. Como o sol estava alto e ainda fazia calor, mas logo chegaria à estação dos furacões, com chuva, umidade e frio intenso. Cruzando os braços para proteger-se, andou mais depressa para a pequena estrada que levava o castelo. Em poucos minutos entrava no calor acolhedor da casa.


Depois de preparar café, esfregou os braços gelados, e ouviu um ruído vindo de fora. Franzindo a testa, foi até a porta de trás e afastou as cortinas que cobriam a pequena janela. Todos os seus impulsos femininos tornaram-se vivos e intensos, ao ver as costas nuas do homem que cortava lenha. Os músculos poderosos moviam-se numa dança da qual não conseguia afastar os olhos.  Arthur.


Como era bonito, usando apenas jeans e botas! De onde estava, podia ver apenas o perfil do rosto, com certeza o lado sem cicatrizes, já que os traços eram aristocráticos e bem-feitos. Os cabelos escuros flutuavam ao vento, cobrindo  a nuca. Os braços eram fortes, musculosos, e ao erguer o machado para cortar mais uma tora, Lua pôde ver como eram poderosos, já que a madeira partiu-se em um golpe. Ele deu mais alguns golpes e depois parou, apoiado no cabo do machado. Quando começou a falar, Lua percebeu que não estava sozinho e foi até a janela. Outro homem, mais velho, sentava-se num banco e brincava com um canivete. Era Micael Borges, e aparentemente era bem mais do que um caseiro. Era amigo de Arthur. Talvez seu único amigo. Micael conversava animadamente, o rosto moreno e  meio coberto pelo boné. A camiseta escura ajustava-se ao tórax esguio, e o jeans estava tão gasto nos joelhos que a cor desbotara. Ela observava os dois homens, e como se Aguiar soubesse que estava ali, continuava de costas. Ainda assim, pôde ver cicatrizes longas e finas descendo pelas costelas, como se tivessem sido feitas por adagas afiadas. Devia ter sido muito doloroso, e mais uma vez, imaginou como teria sido o acidente. De repente, ele inclinou a cabeça para trás e riu. O som, carregado pelo vento, chegou até Lua, que estremeceu, sentindo um estranho calor percorrê-la. Pelo menos ele não tinha perdido a capacidade de desfrutar de pequenos prazeres, como conversar e rir com um amigo, pensou, desejando juntar-se a eles. Mas, se quisesse que o visse, já teria aparecido.


Ele disse algo que fez Micael corar. Logo se levantava, sorria para Arthur e colocava mais toras aos pés dele. Aguiar continuou a trabalhar, cortando tora por tora, enquanto Micael empilhava os pedaços. Então, o caseiro parou, olhando diretamente para ela.


Lua sustentou o olhar.


Arthur largou o machado e pegou o casaco com capuz.


Saindo para a varanda, Lua gritou:


— Desculpe-me. Não tive a intenção de me intrometer.


— Mas fez exatamente isso — disse Aguiar, vestindo o casaco de costas para ela.


...CONTINUA!...

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