Mal podia tolerar a
presença dela ali, em seu lar, seu santuário. Só saber que estava ali era o
suficiente para deixá-lo louco, e queria estrangular Katherine Davenport por
ter lhe mandado uma mulher tão linda. Será que Kat não percebia que não
estivera perto de uma mulher desde o acidente? E até aquela manhã não tivera sequer
uma referência, atém da palavra de Katherine, garantindo que encontrara alguém
muito qualificado. Não tivera tempo de pesquisar o passado dela, e embora
tivesse encontrado apenas parte dele, não havia fotos, embora tivesse imaginado
como era, já que vencera tantos concursos de beleza. Ainda assim, era como se
não desejasse mostrar o lindo rosto. Ele tinha uma boa razão para não mostrar o
rosto. Mas qual seria a dela?
Aos 24 anos,
linda. Ele com seus 26 depois do acidente ficara horrível
Que droga! Ele fora
muito claro ao pedir uma governanta para cuidar de Sofia. Pedira uma mulher,
forte e saudável o suficiente para cuidar de uma garota de quatro anos, e que
compreendesse que a responsabilidade de Sofia seria dela. Não podia deixar que Sofia
o visse. Nunca. A criança fugiria dele, e Arthur sabia que não poderia suportar
isso. Não outra vez. As pessoas fugiam dele por causa das cicatrizes que o
desfiguravam. Não pretendia assustar uma criança.
Sofia. Arthur
cerrou os punhos. Uma criança cuja existência ele ignorara até algumas semanas
atrás, quando a ex-mulher morrera. Parecia que ele era a única pessoa no mundo
que podia cuidar da menina.
Mais uma vez,
amaldiçoou Melanie por não ter lhe dito que carregava um filho ao deixá-lo. Só
Deus sabia como precisara disso, quatro anos antes. Algo para fazê-lo suportar
as inúmeras cirurgias, a difícil recuperação e a dura realidade de que nada
poderia ser feito para recuperar o corpo desfigurado.
Afastando-se da
porta, Arthur pegou o telefone e discou um número, mal contendo a raiva.
— Wife
Incorporated. Katherine Davenport.
— Que droga,Kat, ela é linda! — De tirar o fôlego, acrescentou mentalmente, lembrando-se de
cada curva do corpo perfeito, coberto pelo conjunto branco.
— Então saiu da sua
toca por tempo suficiente para observá-la?
— Por que fez isso?
Arthur ouviu-a suspirar.
— Lua é uma
das pessoas mais bondosas que conheço. E não fiz isso por você, meu bem. Foi
por Sofia. Lua adora crianças, e já trabalhou com elas antes. Tem todas as
qualificações que você queria. E culta, mas não a ponto de não conseguir se
comunicar com uma criança. Além disso, é divertida e criativa. Dê-lhe uma
chance.
— Não tenho
escolha. Sofia chega dentro de dois dias.
— Vai dar certo,
Arthur.
— Encontre outra
pessoa, imediatamente. Eu não a quero aqui. -Houve uma pausa do outro lado, e ao
falar, a voz de Katherine soou fria e brusca:
— Melanie devia ter
lhe contado sobre Sofia, eu concordo, e se não tivesse jurado que não o faria,
eu mesma teria dito. Mas quando ela disse que o deixara porque tinha se tornado
frio e mesquinho, não pude acreditar. Agora, vejo que estava certa.
Arthur sentiu como
se ela o tivesse esbofeteado.
— Melanie me
abandonou porque não pôde suportar as conseqüências do acidente. Queria que eu
fosse o mesmo de antes e que agisse como antes. Isso nunca vai acontecer. — Ele
respirou fundo, antes de prosseguir: — Encontre outra pessoa. — E sem
despedir-se, desligou. Só ao largar o fone percebeu como o segurara com força.
Deixando-se cair na
poltrona de couro, atrás da escrivaninha, virou-a para a janela. O sol lutava
para sair de trás das nuvens, refletindo-se no riacho, enquanto Arthur lutava
para afastar as memórias dolorosas do acidente. A dor cortante, a reação de
horror de Melanie quando tiraram as bandagens, a repugnância que não conseguira
disfarçar. Sempre imaginara que ela estaria a seu lado, em qualquer situação, e
ficara chocado ao vê-la partir. Devia ter imaginado que ela faria isso, quando
se recusara a dividir a cama com ele, e até mesmo a tocá-lo depois do acidente.
Ele podia ver a repulsa, cada vez que estendia a mão para ela. A noite anterior
ao acidente tinha sido a última vez que sentira prazer e ternura com uma
mulher.
E agora a mulher
que fora eleita a mais bonita do Estado estava morando em sua casa. Não fazia
diferença que isso tivesse ocorrido 2 anos antes. Ela ainda era capaz de parar
o trânsito com sua beleza.
A batida foi tão
suave que ele mal ouviu.
— Sr. Aguiar.
O som daquela voz
doce e delicada tocou-o profundamente. E ele quase a odiou por isso.
— Eu já disse que a
chamaria se...
— Pelo que me
lembro, fui contratada para tomar conta da sua filha, não do senhor. Portanto,
pode chamar o quanto quiser, meu senhor, e...
— Pago o seu
salário.
— Sua mãe não lhe
ensinou que é falta de educação interromper uma senhora?
— E você não
aprendeu diplomacia, ao trabalhar no Departamento de Estado?
— Sim. Mas este não
é um território estrangeiro, nem você pode pedir imunidade diplomática.
Lutando contra a
vontade de sorrir, Arthur apoiou a cabeça na poltrona de couro.
— O que você
quer?
— Ah, chegamos ao
estágio das negociações — zombou Lua. — Agora, a menos que a montanha de
alimentos na geladeira e no freezer seja a sua noção de uma dieta balanceada,
preciso planejar o cardápio.
— Muito bem. Pode
pedir o que quiser.
Lua suspirou. Que
homem difícil. Ela sacudiu a bandeja, fazendo a linda porcelana tilintar.
— Ouviu? São
pratos. Com comida — completou.
— Deixe na porta.
Ela piscou.
— O quê?
— Tenho
certeza de que ouviu, Srta Blanco. A porta não é tão grossa.
— Que teimoso
— resmungou Lua.
— Deixe no chão e
vá embora.
Lua colocou a
bandeja junto à porta, e ao olhar para a madeira decidiu que o faria sair dali,
de qualquer modo.
— Pelo jeito, vamos
ter muitos problemas, sr. Aguiar.
— Só se
quebrar as regras.
— E quais são?
— Receberá ordens
através de e-mails em seu computador.
— Meu Deus, que
impessoal!
— É o único modo
possível — disse ele, baixinho, ouvindo os passos dela afastando-se na escada.
Arthur esfregou a
testa, a ponta dos dedos tocando as cicatrizes, e praguejou,
levantando-se e começando a andar de um lado para o outro. Cerrando os dentes,
imaginou como iria sobreviver com aquela mulher linda andando pela casa.
Devia ter
telefonado pedindo as compras, pensou Lua, enchendo o carrinho e tentando
ignorar as pessoas que a observavam, os jovens, muito mais jovens do que os que
pensaria em namorar, fitando-a intensamente. Ela sorriu docemente, um típico sorriso
de passarela, admitiu, rindo baixinho. Alguns homens eram pescadores, e ainda
usavam as botas de borracha da pescaria.
Checando a lista,
Lua dirigiu-se ao caixa. Vai começar, pensou, vendo que as pessoas
aproximavam-se de onde estava, como felinos. Um adolescente que varria o chão
chegou mais perto. A vendedora parecia não ter pressa, fitando-a demoradamente,
apesar da fila. Os clientes não tiravam os olhos dela. Não era de admirar que
Aguiar não saísse de casa. O que teria acontecido com a hospitalidade do sul?
— Você é nova aqui?
— perguntou a vendedora, uma loira que usava argolas enormes nas orelhas e
mastigava chiclete.
— Sim. É uma
linda ilha — disse Lua. Era melhor deixá-los orgulhosos da terra onde viviam.
— Está no castelo,
não é?
— Sou a babá
que o sr. Aguiar contratou.
— Babá?! —
exclamaram várias pessoas ao mesmo tempo. Lua olhou ao redor, fitando um a um,
todos que estavam próximos.
— O sr. Aguiar está
esperando a filha chegar, e estou aqui para cuidar dela.
— Pobre criança —
disse uma velha senhora, num tom sombrio.
— Por quê? —
perguntou Lua, embora soubesse a resposta.
— Imagine ter
um homem tão horrível como pai.
— Conhece o
sr. Aguiar? — perguntou Lua
— Não exatamente.
Esperando que sua
expressão fosse da mais pura inocência, indagou:
— Então, como pode
saber como ele é?
— Ele nunca
sai daquele lugar — disse a vendedora. — Não mostra o rosto há quatro anos. Nem
mesmo Micael que mora lá, conseguiu vê-lo de perto.
Micael, Lua
imaginou, devia ser o caseiro, que ainda não conhecera.
— Ele está
desfigurado — gaguejou o jovem que embalava suas compras.
— Se nunca o
viu, como pode saber disso?
O garoto deu de
ombros, como se fosse de conhecimento geral. Embora ninguém tivesse visto
Aguiar.
— Não acho que a
aparência seja importante — respondeu ela, tentando controlar-se, e detestando
que as pessoas dessem tanta importância às aparências. Ela sabia, por
experiência própria, como isso era injusto e preconceituoso, embora por motivos
opostos. As mulheres recusavam-se a ser suas amigas, acreditando que se
imaginava melhor do que elas. Os homens quase pisoteavam uns nos outros para
aproximar-se, todos tentando levá-la para a cama, ou convidá-la para um
acontecimento social, onde pudessem exibi-la como um troféu. Ninguém, nem mesmo
o ex-noivo, conseguira ver além do rosto lindo que Deus lhe dera. E,
aparentemente, ninguém queria ver além das cicatrizes de Arthur.
Tudo isso fazia Lua
sentir um estranho impulso de defender um homem que nem conhecia. Era difícil
manter o controle diante de tantos preconceitos.
— Coloque na
conta dele, e mande entregar por volta das três — pediu, saindo depressa e sentindo
que todos os olhares a acompanhavam.
Em vez de pegar um
táxi para casa, resolveu acalmar-se, caminhando pela pitoresca cidadezinha. Mas
as lembranças continuavam a atormentá-la. A mãe, arrastando-a para comerciais
de tevê, desde bem pequena, os concursos, tudo que sempre detestara. E quando
crescera, escolhia participar apenas dos que lhe interessavam, porque queria ir
para a faculdade, e precisava do dinheiro.
Olhando em volta,
viu as vitrines das pequenas lojas, os bancos de madeira espalhados por vários
locais, turistas e moradores passeando e fazendo compras. Dois homens mais
velhos sentavam-se junto ao cais, trocando histórias de pescaria. Lua sorriu,
lembrando-se do avô, sentado na cadeira de balanço da varanda, esculpindo
pequenos animais de madeira para que ela e os irmãos brincassem. Aliás, eram os
únicos brinquedos que tinham. Uma vida simples, mas cheia de amor, pensou, com
saudade do avô.
Ela respirou fundo,
saboreando a brisa fria que vinha do mar. Como o sol estava alto e ainda fazia
calor, mas logo chegaria à estação dos furacões, com chuva, umidade e frio
intenso. Cruzando os braços para proteger-se, andou mais depressa para a
pequena estrada que levava o castelo. Em poucos minutos entrava no calor
acolhedor da casa.
Depois de preparar
café, esfregou os braços gelados, e ouviu um ruído vindo de fora. Franzindo a
testa, foi até a porta de trás e afastou as cortinas que cobriam a pequena
janela. Todos os seus impulsos femininos tornaram-se vivos e intensos, ao ver
as costas nuas do homem que cortava lenha. Os músculos poderosos moviam-se numa
dança da qual não conseguia afastar os olhos. Arthur.
Como era bonito,
usando apenas jeans e botas! De onde estava, podia ver apenas o perfil do
rosto, com certeza o lado sem cicatrizes, já que os traços eram aristocráticos
e bem-feitos. Os cabelos escuros flutuavam ao vento, cobrindo a
nuca. Os braços eram fortes, musculosos, e ao erguer o machado para cortar mais
uma tora, Lua pôde ver como eram poderosos, já que a madeira partiu-se em um
golpe. Ele deu mais alguns golpes e depois parou, apoiado no cabo do machado.
Quando começou a falar, Lua percebeu que não estava sozinho e foi até a janela.
Outro homem, mais velho, sentava-se num banco e brincava com um canivete. Era
Micael Borges, e aparentemente era bem mais do que um caseiro. Era amigo de
Arthur. Talvez seu único amigo. Micael conversava animadamente, o rosto moreno
e meio coberto pelo boné. A camiseta escura ajustava-se ao tórax esguio,
e o jeans estava tão gasto nos joelhos que a cor desbotara. Ela observava os
dois homens, e como se Aguiar soubesse que estava ali, continuava de costas.
Ainda assim, pôde ver cicatrizes longas e finas descendo pelas costelas, como
se tivessem sido feitas por adagas afiadas. Devia ter sido muito doloroso, e
mais uma vez, imaginou como teria sido o acidente. De repente, ele inclinou a
cabeça para trás e riu. O som, carregado pelo vento, chegou até Lua, que
estremeceu, sentindo um estranho calor percorrê-la. Pelo menos ele não tinha
perdido a capacidade de desfrutar de pequenos prazeres, como conversar e rir
com um amigo, pensou, desejando juntar-se a eles. Mas, se quisesse que o visse,
já teria aparecido.
Ele disse algo que
fez Micael corar. Logo se levantava, sorria para Arthur e colocava mais toras
aos pés dele. Aguiar continuou a trabalhar, cortando tora por tora, enquanto
Micael empilhava os pedaços. Então, o caseiro parou, olhando diretamente para
ela.
Lua sustentou o
olhar.
Arthur largou o
machado e pegou o casaco com capuz.
Saindo para a
varanda, Lua gritou:
— Desculpe-me. Não
tive a intenção de me intrometer.
— Mas fez
exatamente isso — disse Aguiar, vestindo o casaco de costas para ela.

























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