— O quê?
— O que acha
que uma garotinha de quatro anos pode pensar ao perceber que o próprio pai não
quer vê-la nem falar com ela? Que estranho, não é? Como pode sentir-se
rejeitada? — provocou Lua, sarcástica.
— Droga!
— Concordo. O que
pretende fazer a esse respeito?
— O que posso
fazer?
— Desça e venha falar
com ela.
— Acha que não quero
isso? Mas não vou aterrorizar minha própria filha.
— Ela o ama
incondicionalmente. É algo que os pais conseguem dos filhos, sem precisar fazer
nada em troca. — Lua desligou o interfone, recusando-se a continuar. Mas depois
de alguns instantes, apertou o botão mais uma vez. — É sua vez de jogar. Faça-o
agora, ou saia de campo.
— O que
quer dizer com isso? — A voz dele parecia ameaçadora, mas Lua não se importou.
— Fique
escondido até ela esquecer que tem um pai, até que aprenda a viver sozinha.
Talvez seja melhor. — Ela desligou novamente, voltando a preparar o jantar.
Arthur chamou-a duas
vezes, mas Lua não atendeu. Por fim, recostou-se na poltrona de couro,
esfregando as mãos no rosto. Mulher teimosa. Quem ela pensava que era para
ensinar-lhe como cuidar da filha? Era apenas a babá, mais nada. Ele estabelecia
as regras. Sofia era sua filha, e iria criá-la como achasse melhor.
Arthur estava
amarrando os tênis, quando viu a patinha branca sob a porta e ouviu o miado.
Endireitando-se, abriu a porta. A gatinha espiou, erguendo o olhar para vê-lo.
Era impossível não sorrir. A gatinha esfregou-se nos tornozelos dele, ronronando,
e Arthur abaixou-se, pegando-a no colo.
— Está invadindo meu
quarto, Serabi.
Era tarde, a casa
estava silenciosa. Sofia estava na cama, e ele imaginava que Lua estaria no
quarto, ou no andar de baixo. Já fazia algum tempo que não ouvia qualquer
ruído. A gatinha miou, e Arthur apertou-a contra o peito, decidido a levá-la de
volta para a filha, antes de sair para a corrida noturna. Mas a gatinha
deslizou para cima, lambendo-o no pescoço. Ele estremeceu, ansioso pelo contato
com outra criatura viva, e enterrou o rosto no pelo macio, enquanto descia as
escadas. Serabi ronronou mais alto.
Arthur entrou
silenciosamente no quarto de Sofia, iluminado apenas pela pequena lâmpada num
dos cantos. Ele colocou a gatinha na cama e observou-a, enquanto ajeitava o
cobertor. A mão da menina imediatamente pousou nas costas do animalzinho.
Ela pensa que você
não a quer aqui, dissera Lua. Desde aquela manhã, ele tentava pensar num modo
de fazer a menina entender que era a melhor coisa que acontecera em sua vida.
Que precisava muito
dela. Cuidadosamente, sentou-se na beirada da cama, observando-a dormir. Serabi
ergueu a cabeça, lançou-lhe um olhar sonolento e voltou a dormir.
Sofia espreguiçou-se
e Arthur ficou tenso.
Os olhos dela se
entreabriram e ele ficou imóvel, o coração disparado. Estava tão escuro que não
podia ver mais do que a silhueta dele. Não queria que pensasse que havia algo
estranho ali.
— Papai?
Ele ouviu a voz
trêmula e rezou para que não estivesse com medo.
— Sim,
princesa?
— Está zangado?
— Não, querida. Por
que achou que estaria?
— Nunca vem me ver.
— Estou aqui agora,
não estou?
Houve uma pausa, e
então ela respondeu:
— Sim, acho que
sim.
Arthur fez o que não
deveria. Inclinando-se, tomou-a nos braços. A gatinha protestou, e ele
colocou-a sobre o travesseiro. Os braços de Sofia rodearam-lhe o pescoço, e ela
aninhou-se. A garganta de Arthur apertou-se, e ele sussurrou, junto ao ouvido
da menina:
— Eu te amo,
Sofia. Te amo demais. Estou tão feliz por estar comigo agora...
— De verdade?
— É claro, meu bem. Eu
te amo muito. Gostaria de poder ir lá fora, brincar com você, mas é impossível.
— Por quê?
— Porque... não posso
ficar no sol.
— Seus cortes ainda
doem, papai? Mamãe disse que foram muito fundos.
Arthur fechou os
olhos. Fundos? Eles tinham atingido até sua alma.
— Sim, querida.
Às vezes doem muito.
De um modo que ele
esperava que ela jamais sentisse.
— Oh! — Sofia
suspirou, aninhando o corpo quente e macio contra o peito dele. — Uma vez eu
caí e machuquei o joelho. Doeu muito tempo.
Arthur sentiu a
garganta seca. Ela tentava demonstrar que compreendia, e o coração dele
apertou-se.
— Eu estava tão
sozinho até você chegar filha!
— Eu também,
papai. — A mão delicada tocou a cicatriz na garganta dele, sem parecer notá-la.
— Eu te amo — sussurrou, bocejando em seguida.
Amor incondicional,
dissera Lua. E perdão? Ele acariciou-a e ninou-a, sem vontade de deixar o
presente tão precioso que a vida lhe dera. Os braços dela afrouxaram o aperto,
e ele percebeu que adormecera. Afastando a gatinha, delicadamente colocou Sofia
na cama. Serabi ajeitou-se, e as duas bocejaram.
Arthur afastou-se.
— Não vá, papai.
Ele sorriu ternamente
e sussurrou:
— Vou ficar aqui, meu
bem. — E sentando-se na cadeira de balanço, pegou um livro de histórias. Os
olhos de Sofia se abriram, e no escuro, ele começou, baixinho:
— Era uma vez, numa
terra distante, uma linda garotinha...
























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Como ele tava lendo no escuro :o kkkkkkkkkk brinks
ResponderExcluirkkk née? Super Arthur!
ResponderExcluirawn que fofo *-* a web tem que ter momentos assim <3
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