segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

A Bela e a Fera (Capítulo 10)





          — O quê?

— O que acha que uma garotinha de quatro anos pode pensar ao perceber que o próprio pai não quer vê-la nem falar com ela? Que estranho, não é? Como pode sentir-se rejeitada? — provocou Lua, sarcástica.


— Droga!


— Concordo. O que pretende fazer a esse respeito?


—  O que posso fazer?


— Desça e venha falar com ela.


— Acha que não quero isso? Mas não vou aterrorizar minha própria filha.


— Ela o ama incondicionalmente. É algo que os pais conseguem dos filhos, sem precisar fazer nada em troca. — Lua desligou o interfone, recusando-se a continuar. Mas depois de alguns instantes, apertou o botão mais uma vez. — É sua vez de jogar. Faça-o agora, ou saia de campo.


   — O que quer dizer com isso? — A voz dele parecia ameaçadora, mas Lua não se importou.


—  Fique escondido até ela esquecer que tem um pai, até que aprenda a viver sozinha. Talvez seja melhor. — Ela desligou novamente, voltando a preparar o jantar.
Arthur chamou-a duas vezes, mas Lua não atendeu. Por fim, recostou-se na poltrona de couro, esfregando as mãos no rosto. Mulher teimosa. Quem ela pensava que era para ensinar-lhe como cuidar da filha? Era apenas a babá, mais nada. Ele estabelecia as regras. Sofia era sua filha, e iria criá-la como achasse melhor.

Arthur estava amarrando os tênis, quando viu a patinha branca sob a porta e ouviu o miado. Endireitando-se, abriu a porta. A gatinha espiou, erguendo o olhar para vê-lo. Era impossível não sorrir. A gatinha esfregou-se nos tornozelos dele, ronronando, e Arthur abaixou-se, pegando-a no colo.


— Está invadindo meu quarto, Serabi.


Era tarde, a casa estava silenciosa. Sofia estava na cama, e ele imaginava que Lua estaria no quarto, ou no andar de baixo. Já fazia algum tempo que não ouvia qualquer ruído. A gatinha miou, e Arthur apertou-a contra o peito, decidido a levá-la de volta para a filha, antes de sair para a corrida noturna. Mas a gatinha deslizou para cima, lambendo-o no pescoço. Ele estremeceu, ansioso pelo contato com outra criatura viva, e enterrou o rosto no pelo macio, enquanto descia as escadas. Serabi ronronou mais alto.

Arthur entrou silenciosamente no quarto de Sofia, iluminado apenas pela pequena lâmpada num dos cantos. Ele colocou a gatinha na cama e observou-a, enquanto ajeitava o cobertor. A mão da menina imediatamente pousou nas costas do animalzinho.


Ela pensa que você não a quer aqui, dissera Lua. Desde aquela manhã, ele tentava pensar num modo de fazer a menina entender que era a melhor coisa que acontecera em sua vida.


Que precisava muito dela. Cuidadosamente, sentou-se na beirada da cama, observando-a dormir. Serabi ergueu a cabeça, lançou-lhe um olhar sonolento e voltou a dormir.


Sofia espreguiçou-se e Arthur ficou tenso.


Os olhos dela se entreabriram e ele ficou imóvel, o coração disparado. Estava tão escuro que não podia ver mais do que a silhueta dele. Não queria que pensasse que havia algo estranho ali.


— Papai?


Ele ouviu a voz trêmula e rezou para que não estivesse com medo.


—  Sim, princesa?


— Está zangado?


— Não, querida. Por que achou que estaria?


— Nunca vem me ver.


— Estou aqui agora, não estou?


Houve uma pausa, e então ela respondeu:


—  Sim, acho que sim.

Arthur fez o que não deveria. Inclinando-se, tomou-a nos braços. A gatinha protestou, e ele colocou-a sobre o travesseiro. Os braços de Sofia rodearam-lhe o pescoço, e ela aninhou-se. A garganta de Arthur apertou-se, e ele sussurrou, junto ao ouvido da menina:


— Eu te amo, Sofia. Te amo demais. Estou tão feliz por estar comigo agora...


— De verdade?

— É claro, meu bem. Eu te amo muito. Gostaria de poder ir lá fora, brincar com você, mas é impossível.

— Por quê?


— Porque... não posso ficar no sol.


— Seus cortes ainda doem, papai? Mamãe disse que foram muito fundos.


Arthur fechou os olhos. Fundos? Eles tinham atingido até sua alma.


—  Sim, querida. Às vezes doem muito.


De um modo que ele esperava que ela jamais sentisse.


— Oh! — Sofia suspirou, aninhando o corpo quente e macio contra o peito dele. — Uma vez eu caí e machuquei o joelho. Doeu muito tempo.


Arthur sentiu a garganta seca. Ela tentava demonstrar que compreendia, e o coração dele apertou-se.


—  Eu estava tão sozinho até você chegar filha!


—  Eu também, papai. — A mão delicada tocou a cicatriz na garganta dele, sem parecer notá-la. — Eu te amo — sussurrou, bocejando em seguida.


Amor incondicional, dissera Lua. E perdão? Ele acariciou-a e ninou-a, sem vontade de deixar o presente tão precioso que a vida lhe dera. Os braços dela afrouxaram o aperto, e ele percebeu que adormecera. Afastando a gatinha, delicadamente colocou Sofia na cama. Serabi ajeitou-se, e as duas bocejaram.


Arthur afastou-se.


— Não vá, papai.


Ele sorriu ternamente e sussurrou:


— Vou ficar aqui, meu bem. — E sentando-se na cadeira de balanço, pegou um livro de histórias. Os olhos de Sofia se abriram, e no escuro, ele começou, baixinho:


— Era uma vez, numa terra distante, uma linda garotinha...

 ...CONTINUA!...

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