quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

A Bela e a Fera (Capítulo 6)




Deslizando os dedos pelos livros nas prateleiras, leu os títulos, continuando até a escrivaninha e sentando-se na cadeira de couro. Será que ele lia todas as noites? Será que a presença dela lhe roubara toda a liberdade?



Será que, algum dia, se aproximaria dela e de Sofia e teria uma vida normal? Ela conhecia bem as crianças e sabia que a menina não aceitaria aquela situação por muito tempo. Por isso, temia o momento em que Sofia perguntaria pelo pai. Só porque escolhera viver escondido, não podia esperar que a garotinha aceitasse a mesma vida. Lua disse a si mesma que só deixaria o castelo quando tivesse certeza de que pai e filha podiam viver juntos.


Virando-se, parou ao ver os porta-retratos, arrumados num canto da escrivaninha. Inclinando-se, pegou a foto do casamento.


— Meu Deus... — murmurou, afundando na cadeira.


Ali estava Arthur, antes do acidente. Ele era maravilhoso... A ex-esposa era linda, perfeita, mas era ele quem se destacava na foto. Os cabelos escuros, os olhos castanhos , como os de Sofia, o sorriso lindo. Os traços do rosto pareciam ter sido esculpidos por um artista clássico e eram perfeitos, aristocráticos. Não era apenas bonito. Era fascinante, e o coração de Lua deu um salto, ao pensar que aquele homem sentia-se atraído por ela.


No outro lado do corredor, escondido nas sombras, Arthur ouviu as palavras sussurradas e mal pôde suportar a dor. Tinha se esquecido da foto. Desde o colegial, tivera mais mulheres do que podia contar, graças a sua aparência. Até o acidente.


O olhar dele pousou nas pernas nuas, quando Lua mexeu-se na cadeira. Ela vestia apenas uma camisa preta e comprida, e o corpo dele enrijeceu, sabendo que apenas alguns metros os separavam.


Mas a distância não fazia diferença. Se visse o rosto dele, saberia que o homem da foto tinha morrido, quatro anos atrás.


Lua  franziu a testa, colocando a foto no lugar. Mais uma vez, olhou ao redor. Havia uma sombra no corredor e ela se levantou depressa, caminhando até a porta.


— Apareça, onde estiver, apareça.


Ninguém respondeu. Mas tinha certeza de que havia alguém ali.


— Pare com isso, sr. Aguiar  — advertiu Lua, andando até o centro do saguão e tentando enxergar na semi-escuridão. — Só é um fantasma porque quer. Se tiver algo a dizer, fale!


O silêncio ecoou no vazio, mais uma vez.


— Pois bem, eu tenho algo a dizer!

Um movimento no fim do largo corredor atraiu-lhe a atenção, e Lua correu, entrando na cozinha a tempo de vê-lo sair, fechando a porta atrás de si. Ela correu para fora.


— Arthur!


Por um instante ele hesitou, e então, protegido pelo agasalho preto com capuz, começou a correr para a praia. Ela observou-o até que os desenhos fluorescentes nos tênis desapareceram na escuridão.


Não pode viver nas sombras para sempre, pensou.



Crianças eram muito mais resistentes do que os adultos, pensou Lua ,  na manhã seguinte.


Imaginara que a filha de Arthur estaria assustada e com medo na manhã seguinte, mas se enganara. Sofia aparecera no quarto dela, bem cedo, com um sorriso no rosto e cheia de curiosidade. Queria ver a nova casa, brincar, e Lua decidiu esquecer o trabalho de casa e dedicar-se a menina.


Sofia riu muito quando Lua tentou descer pelo escorregador, que por certo não fora feito para adultos, e acabou caindo de um modo desastrado.


Sofia  correu para ela, rindo sem parar.


— Acho que estou meio enferrujada.


— Vá de novo! — pediu Sofia, saltitando.


—  Não. Acho que a Rainha do Escorregador é você — declarou Lua, levantando e limpando a calça jeans.


A menina não hesitou, e Lua sorriu ao vê-la subir depressa, as perninhas escalando os degraus altos. Sofia passou do escorregador para o balanço e dali para a caixa de areia. Depois, as duas correram para a praia, Lua carregando a pá e o baldinho, até chegarem à beira-mar. Para surpresa de Sofia, Lua sentou-se no chão, ajudando-a a construir o castelo de areia.


— Estou toda suja de areia — disse a menina, mais tarde, enquanto observavam a maré desmanchar o castelo.

Não faz mal. Vamos tomar um banho — disse Lua, dando de ombros.

— Não vai brigar comigo?


Ela, parou, abaixando-se ao lado da menina.


— É claro que não, meu bem. É impossível brincar na areia sem se sujar.


— Minha mãe não gostava de areia.


Pobrezinha, pensou Lua, ao ver que a menina estava prestes a chorar. Carinhosamente, pegou-a no colo.


O coração de Arthur apertou-se ao ver como Lua carregava a menina nos braços, trazendo-a para casa. O olhar dele não conseguia afastar-se das duas, enquanto se aproximavam, e desejou poder estar com elas. A angústia cresceu, ao observá-las. Não fizera outra coisa o dia inteiro, mudando de uma janela para outra, atraído pelas risadas das duas.


Lua  parou nos degraus da entrada, olhando-o diretamente. Arthur afastou-se da janela tarde demais. A expressão dela dizia claramente que era ele quem deveria estar ali.


Lua  carregou Sofia para cima e ajudou-a a tirar as roupas molhadas. Logo a colocava num banho cheio de espuma perfumada.


Meia hora mais tarde,Sofia estava limpinha e cheirosa, pronta para uma soneca, embora insistisse que não estava com sono. Na cozinha, no entanto, acabou adormecendo sobre o sanduíche de geleia que Lua preparara. Ao carregá-la para cima, a menina passou os braços no pescoço de Lua, que a colocou na cama de princesa, cobrindo-a carinhosamente. Depois de acender o pequeno abajur de cabeceira, saiu silenciosamente do quarto e desceu para a cozinha para lavar a louça. Preparou uma bandeja para Arthur, um prato para Micael e ligou o interfone.


—  O almoço está servido, senhor.


—  Obrigado.


— Não vou levar aí em cima. Terá que se arriscar e descer.


— Lua...


—  Tenho trabalho a fazer, sr. Aguiar. Trabalho que não fiz porque estava brincando com sua filha.

Houve um breve instante de silêncio.


—  Obrigado, Lua.


— De nada. Ela é uma criança adorável. Agora saia do seu esconderijo e venha comer.


—  Está agindo como uma tirana.


Ela ignorou o sorriso que percebia na voz dele.


— Essa sou eu: Lua, a Impiedosa. — Desligou o interfone e afastou-se, mas depois de alguns segundos, voltou. — E quero que esteja aqui quando eu pedir desculpas pela noite passada.


Ela não respondeu quando o ouviu chamar seu nome. Arthur ia descer, pensou Lua. Mesmo que fosse a última coisa que fizesse naquela casa, iria tirá-lo do esconderijo, nem que tivesse de arrancá-lo de lá aos berros.

Arthur ouviu os gritos de Sofia, cada vez mais altos, enquanto descia depressa a escada que levava ao quarto da filha, amarrando o roupão. Abrindo a porta, viu a criança que se debatia sob as cobertas.


O pequeno abajur de cabeceira proporcionava apenas um brilho pálido, e os gemidos explodiram num grito, assim que ele a alcançou. Tomando a menina nos braços, sussurrou que tudo estava bem, e que estava ali para protegê-la. Ela tremia, as mãozinhas agarradas ao tecido do roupão.


—  Papai está aqui, querida — sussurrou, acariciando-lhe as costas. Logo ela relaxou, começando a chorar baixinho.


— Eu... estava com medo.


—  Eu sei, querida, eu sei.


— Ah, papai, mamãe se foi — gemeu Sofia, e o coração de Arthur apertou-se. Como uma criança de quatro anos podia lidar com morte e pensar, coisas que nem os adultos aceitavam?


— Eu estou aqui, Sofia.


Os soluços diminuíram, e quando ela passou os braços à volta do pescoço dele, Arthur ficou tenso. Ela não pareceu notar as cicatrizes e ele relaxou um pouco, ninando a filha e desejando nunca mais se afastar dela. Queria tanto protegê-la, ajudá-la a livrar-se dos sonhos maus! Tinha que fazê-la sentir-se segura.

Beijando a testa da menina, falou com ela, disse-lhe como estava feliz por tê-la ali e que iria protegê-la, sempre. Ela estremeceu mais uma vez e adormeceu. Mesmo assim, Arthur continuou a segurá-la. Era a terceira noite que tinha pesadelos. Lua sempre viera socorrê-la, e ele imaginava onde estaria agora. O ouvido dela parecia ser mais aguçado do que o seu. Devia estar exausta, imaginou, ainda mais depois de ter brincado com a menina o dia todo. Colocando Sofia na cama, cobriu-a carinhosamente, lembrando das cenas que vira pela janela. Lua ensinara Sofia a fazer um carrinho de madeira, e depois as duas haviam desaparecido no estábulo. Auxiliadas por Micael, elas tinham aparecido montando uma égua mansa. Trotaram pela praia, mas ele percebera que Lua gostaria de cavalgar contra o vento. E não pudera deixar de notar como as duas estavam ficando cada vez mais próximas. Arthur admitiu que estava com ciúme, embora estivesse grato ao ver como se davam bem. Lua seria uma mãe maravilhosa, e mais uma vez imaginou por que não teria se casado.


Ele ouviu a porta ranger ao abrir-se. Depressa, endireitou-se e deslizou rapidamente pela passagem secreta.


Lua entrou no quarto, com a testa franzida. Podia jurar que tinha ouvido alguma coisa. Olhou ao redor e de novo para a criança adormecida, inclinando-se para beijá-la. Ao fazê-lo, percebeu um perfume diferente, que não era do xampu de Sofia.


Era masculino, picante, e logo ficou alerta.


— Sr. Aguiar? — sussurrou. Não obteve resposta, mas de fato não esperava uma. Mesmo com Sofia adormecida, ele estivera ali. E isso era algo importante. Significava que não era tão distante quanto fingia ser.


Deixando o quarto, percebeu que tinha perdido o sono e decidiu descer para preparar um chá de camomila. Os corredores estavam escuros, iluminados apenas pelas pequenas lâmpadas junto ao chão, enquanto se dirigia para a cozinha. Estava esquentando a água para o chá quando ouviu o barulho de madeira estalando. Correndo para a sala de estar, viu as chamas ardendo na lareira. Ele a acendera, pensou, aproximando-se do fogo para aquecer os pés nus. Podia sentir que estava atrás dela, em algum lugar.

— Venha até aqui — disse a voz masculina.

Ela virou-se. Arthur estava sentado numa poltrona de espaldar alto, longe o bastante das chamas para que não pudesse vê-lo. Tinha certeza de que ele conhecia cada sombra da casa, e sabia como impedir que o visse. A constatação irritou-a profundamente. Ao fitá-lo, viu apenas o roupão de seda marrom e a calça de pijama combinando.


— Por que não está dormindo?


— Pouco exercício, suponho. — Ele levou aos lábios o copo de cristal, que cintilou à luz da lareira.


Lua pôde ver que a mão direita era lisa, sem cicatrizes, e a outra continuava escondida, ao lado do corpo.


—  Bem, a culpa é toda sua. Ninguém lhe disse que deve ficar escondido na torre.


— Não quero recomeçar essa discussão, Lua. Ou me deixa em paz, ou fica aqui comigo. Tem vinho na mesinha. — Arthur fez um gesto com o copo.


Ela hesitou, imaginando se seria prudente ficar tão perto dele.


— Está com medo? — perguntou Arthur, num tom rouco, que fazia Lua experimentar sensações perturbadoras.


Ela riu baixinho.


—  De você? Não... Nunca ouviu o ditado "Cão que ladra não morde"?


— Como pode ter certeza?


—  Porque nunca chega perto o suficiente para morder — retrucou ela.


— Tão corajosa — murmurou ele, tomando mais um gole de vinho e desejando que ela sentasse bem longe. As chamas iluminavam o roupão de seda preta, delineando as curvas do corpo perfeito. Ele tentou controlar a frustração, mas não conseguia deixar de fitá-la. Ela era perfeita, e a tensão de seu corpo era algo que não podia negar. Não queria desejá-la, mas era humano, nem um pouco diferente dos outros homens. E Lua tinha um corpo deslumbrante, pernas longas, seios fartos... e estava ali, à frente dele.


—  Sente-se, Lua — disse, por fim, incapaz de suportar aquela visão tentadora.


— Vou pegar o meu chá.

Ela foi até a cozinha e voltou, e ao perceber que ele continuava ali, sentiu um estranho prazer. Sentando-se na ponta do sofá, em frente à lareira, tomou um gole do chá e percebeu que ele se mexia na cadeira.


Ouço sua respiração se acelerar, sinto seu corpo pulsar quando estou perto, ele dissera na outra noite.


Será que tinha noção do que estava fazendo com ela agora? Lua tomou um gole de chá, tentando afastar as sensações perturbadoras, sem resultado. Fechando o roupão junto ao pescoço, lembrou-se da foto. Como devia ser difícil para ele, um homem que fazia as mulheres suspirar com sua beleza, perceber que agora estremeciam de repulsa ao vê-lo.


—  Peço desculpas pelo que disse na outra noite — disse, olhando na direção dele.


— Por quê? Era verdade.


As palavras dele fizeram-na estremecer.


— Fui muito rude.


Arthur sentiu o coração dar um salto.


— Aceito suas desculpas.


—  Obrigada, sr. Aguiar.


—  Acho que já agredimos um ao outro o suficiente para podermos nos tratar pelos nomes.


    — Oh, Arthur — sussurrou ela, baixinho, virando-se para ele. — Não pretendia magoá-lo.


— A verdade feriu mais a você do que a mim.


— Pare de ser tão frio! — Ela colocou a caneca de chá sobre a mesa com um gesto brusco.


—  O que quer que eu faça? Que negue que sinto atração por você? Você é linda, droga!


— E daí? Minha aparência é apenas obra da natureza. Não o que realmente sou. — Lua levantou-se, furiosa por perceber que ele podia perturbá-la tanto. Principalmente porque jurara nunca mais se envolver com um homem que desse tanta importância às aparências. — Sabe o que eu acho?


— Tenho certeza de que vai me dizer de qualquer modo. — Ignorando a observação, ela continuou:


— Acho que não confia em si mesmo o suficiente. Esqueceu-se como agir de modo normal, em vez de comportar-se como um urso ranzinza que foi acordado, sem querer, da hibernação.

— Sei o que quer, Lua, mas não posso permitir.

Com as mãos nos quadris, ela olhou-o diretamente, percebendo que os dedos fortes apertavam o copo de vinho.


—  Então, minha vontade não conta?


— Minhas experiências no passado já foram suficientes — disse ele, paciente, desejando que ela estivesse usando mais roupas. — Apenas não gosto do que me faz sentir.


—  Detesta? Qualquer mulher ficaria encantada ao ouvir isso, Arthur! Mas deixou seus sentimentos muito claros na outra noite. Acho que é bom saber que só ficarei aqui até que se relacione com Sofia como um pai de verdade — disparou, passando por ele.


— Então nunca irá embora.


Lua parou bem atrás da poltrona dele, fitando-o com um misto de raiva e simpatia. As chamas refletiam-se nos cabelos escuros, nos ombros largos, e parte dela desejava sentar-se no colo dele, aninhar-se em seu peito. A outra parte queria fazê-lo ter um mínimo de bom senso.


— Não posso ficar aqui para sempre, Arthur. — Ele levantou-se de repente, virando-se para ela.


— Temos um contrato.


Ao ouvir o pânico na voz dele, Lua percebeu que não devia tê-lo ameaçado. Mas era tão teimoso...


— Temos, sim — assegurou, baixinho, e ao erguer a mão para tocá-lo, Arthur agarrou-lhe o pulso.


— Nunca tente me tocar. É parte do trato.


Os dois ficaram em pé, muito próximos, e Lua sentiu a pele arrepiar-se, antecipando o que podia acontecer. Um só gesto e poderia puxá-lo para a luz, mas não queria destruir a confiança dele. Arthur não mudaria de ideia da noite para o dia.


— Vou fazer um acordo com você — disse, baixinho, percebendo que os dedos dele relaxavam em seu pulso. — Você pára de falar nos meus títulos de beleza, e eu prometo que não tentarei mais vê-lo.


Ele riu, e o som másculo e vibrante fez Lua estremecer.


—  Concordo.


Ele soltou-a. Lua assentiu, dando um passo para trás e apoiando-se na poltrona. Arthur sentiu que ela estava fugindo e apertou com tanta força o copo que quase partiu o cristal delicado. Lua já ia saindo, quando parou junto à porta.


—  Só mais uma coisa.


Ele virou-se. Ela estava de costas.


—  Sim?


—  Sou uma pessoa sincera. Costumo dizer o que sinto. Se me deixar furiosa, vou dizer porque... — ela virou-se, olhando para o homem escondido nas sombras —, não vou pagar pela traição dela... nem pela fraqueza.

Estava falando de Melanie, e Arthur entendeu muito bem. As duas mulheres não se pareciam em nada, mas mesmo assim não queria vê-la olhar para ele como Melanie fizera no passado.


— Não preciso vê-lo, Arthur, para saber que tipo de homem que realmente é. — Ela saiu para o corredor, e os pés nus mal haviam tocado o primeiro degrau da escada quando ele a alcançou. Lua gelou, mas não se mexeu.


O calor do toque dele penetrava o tecido do roupão, e fechando os olhos, ela esperou. Seus joelhos fraquejaram ao senti-lo tão perto, e apoiou-se no corrimão.


— Acha que sou tão correto... — sussurrou, junto ao ouvido dela, a respiração cálida tocando-lhe o pescoço.


—  Sei que é.


— Bem, talvez deva se lembrar que não tenho uma mulher há muito tempo.


—  Que elogio — sussurrou ela, com a garganta seca.


— É mesmo — retrucou Arthur. — Porque é a única coisa que me fez desejar sair das sombras.


Ela estremeceu, sentindo a boca seca.


— Que droga, Lua — disse ele, num tom que expressava o mesmo desejo que ela sentia. — Quando olho para você, tudo que quero é sentir seu gosto e...


Um calor intenso a envolveu, e Lua colocou a mão sobre o coração, que batia disparado.


—  Sentir sua pele nua sob a minha boca... — Ela sufocou um gemido.


—  E estar... — a voz dele baixou ainda mais —, dentro de você...

Dentro de você. As palavras de Arthur evocavam imagens de corpos ondulantes, beijos ardentes, e ela apoiou-se nele. Ele segurou-a pelos ombros, enterrando o rosto na curva do pescoço macio. Ela se mexeu, e Arthur gemeu baixinho.

— Lua... — O perfume feminino o invadiu como chuva fresca num deserto árido.


Molhando os lábios com a ponta da língua, ela ergueu a mão para tocá-lo, mas parou. Arthur segurou-a pela cintura e virou-a, agarrando as duas mãos de Lua e prendendo-as atrás das costas, com uma só mão.


O movimento fez os corpos se tocarem e ela pôde sentir a rigidez de Arthur, agora que estavam de frente um para o outro.


—  Sente o que faz comigo?


Ela ergueu o olhar para fitar o rosto escondido na escuridão. . 

— Não é mais do que você faz comigo — sussurrou, o corpo ardendo de desejo.


O rosto dele aproximou-se ainda mais.


—  Seria capaz de fazer isso sem me ver? — disse ele, os lábios tocando de leve os dela.


Uma emoção intensa os envolvia.


—  Sim.


No mesmo instante a boca máscula cobriu os lábios de Lua, num beijo ardente e apaixonado. O beijo tornava-se cada vez mais exigente, e ela aceitou, entregando-se à gloriosa sensação que a envolvia, como uma onda ardente e avassaladora. O coração batia disparado, e quando ele apoiou-se contra a parede, acomodando-a entre as coxas fortes, Lua não protestou. Era tudo tão erótico... A escuridão, o fato de não poder tocá-lo, quando desejava enterrar os dedos nos cabelos macios, mostrando-lhe tudo o que provocava nela.


A língua exigente invadiu-lhe a boca e Lua abriu os lábios, fazendo Arthur gemer de desejo. Uma das mãos dele segurava-lhe os dois pulsos, mas a outra lhe acariciou as costas, puxando-a para mais perto. Ela se mexeu, gemendo de frustração por não poder tocá-lo.
Arthur quase perdeu o controle quando a língua de Lua acariciou-lhe os lábios, cheia de paixão. Era exatamente o que os dois pareciam querer extinguir com os beijos. Mas ela só aumentava. Cada vez mais.


A mão dele subiu até o ombro de Lua , a ponta dos dedos tocando a pele nua, sob o roupão. O simples toque provocou uma reação intensa, como se fogo liquido lhe percorresse as veias, e ela arqueou o corpo. A mão deslizou, tocando o seio macio, e Lua beijou-o de modo selvagem, apertando o corpo contra o dele. Se não podia tocá-lo, tinha que expressar a paixão de outras maneiras. Os dedos fortes acariciaram o mamilo ereto, enquanto os beijos se tornavam mais ardentes. Arthur sentia-se vivo e louco de desejo. Queria mais. Queria sentir as mãos dela em seu corpo, o corpo dela nu colado ao seu. Queria sentir o toque de uma mulher. Daquela mulher. Só ela.


Mas não podia. Aquilo era tudo que poderiam ter, e sabia que tinha cruzado uma barreira que jamais deveria ter ignorado. Bruscamente, afastou os lábios dos de Lua.

Não — gemeu ela, sabendo que iria deixá-la. Estava louca de desejo.
— Não posso. — Ele mal podia respirar. Afastando-a dele, endireitou-se. Com um suspiro, soltou-a, e Lua cambaleou, sentindo as pernas fracas. Ele amparou-a e Lua apoiou as mãos nos ombros dele.Arthur enrijeceu.


— Lua, não...


Ela não obedeceu e deslizou as mãos pelo peito musculoso, coberto pelo roupão de seda, sentindo o coração dele disparar, os músculos enrijecendo quando ela tocou o cinto do roupão.


Ele ficou imóvel, cada fibra do corpo tensa sob o toque delicado.


—  Não fiz isso por piedade, Arthur — disse, num tom suave. — Seus dedos deslizaram mais para baixo. — Eu quis. —A mão delicada tocou-o, antes de virar-se para subir a escada. — Ou será que não percebeu?


Arthur continuou ali, imóvel, incapaz de responder ou de fazer qualquer movimento. Observou-a subir a escada, o roupão meio aberto, expondo boa parte dos seios. Ela não fez nenhum gesto para tentar cobrir-se, e parou no meio da escadaria, voltando-se para ele.


— Ainda detesta o que faço você sentir? Ele apoiou-se na parede.


—  Sim... e não.


—  Que parte de você vencerá, Arthur? O homem cujos beijos me levaram ao céu, ou a fera que está trancada dentro dele? — Com essas palavras subiu correndo os degraus, como se tivesse medo de ceder e voltar correndo para os braços dele.


Quando ela desapareceu de vista, Arthur esmurrou a parede. Tinha sido um tolo em tocá-la. Tinha que ficar longe dela. Mas apenas o pensamento de não vê-la já era doloroso demais...

Arthur a evitara por alguns dias. Dois, para ser exato, e isso o deixava louco para ter companhia. O ruído de passos e as risadas de Sofia não estavam ajudando nem um pouco. O som competia com a chuva do lado de fora. O ruído, a música e as risadas chegavam até ele, provocando uma enorme vontade de ver o que acontecia. Mas continuava dizendo a si mesmo que tinha muito trabalho a fazer.

olhou para os três computadores, através dos quais gerenciava as empresas e comunicava-se com os empregados, e então pegou o controle remoto, ligando a tevê. Colocando o volume bem alto, tentou abafar o som das vozes femininas que brincavam na casa.


Mesmo olhando para o programa de entrevistas, não podia deixar de se admirar ao ver como Lua se envolvera com a menina, em poucos dias. Não eram apenas as brincadeiras, as risadas, mas os pequenos cuidados que percebia, como as fitas nos cabelos de Sofia, combinando com as roupas, o modo como arrumava a mesa. E também como deixava de lado qualquer coisa quando a menina precisava. Só que ele desejava estar lá para abraçá-la, para amarrar os sapatos, enxugar as lágrimas.


Ele ligou o interfone, no volume no máximo, para poder ouvir o som da casa toda. Era estranho, depois de tanto tempo vivendo no silêncio.


—  Lua , veja!


Ele ouviu passos e um gemido... de Lua. Da última vez que ouvira aquele som, ela estava em seus braços, entregue aos beijos ardentes. Esfregando os lábios, tentou afastar as lembranças.


— Oh, Sofia, coitadinho!


—  Se ficar no estábulo pode ser pisoteado, não é?


—  Sim.


— Posso pegá-lo?


— Ah, temos que pegá-lo. Vista a capa. Vai ter que se agachar e ser paciente. Se ele vier até você, podemos trazê-lo para dentro. Se não vier é porque não está pronto para ficar conosco, e pode arranhar você.


— Está bem — disse Sofia. — Mas ele virá. Franzindo a testa, Arthur  levantou-se e foi até a janela que dava para o pátio de trás. A filha correu na direção do estábulo, vestindo uma capa amarela. Ali, bem na porta, estava um gatinho minúsculo, branco como neve. Sofia ajoelhou-se e estendeu a mão, esperando, como Lua ensinara. Arthur apertou o botão do interfone.


— Um gato, Lua?


— É um gatinho, e eu imaginei que estivesse trabalhando. Ele ignorou o comentário.

Não acho uma boa idéia. Ela tem apenas quatro anos.
— E precisa de algo para cuidar. Vai aliviar a dor da perda, Arthur. Precisa sentir que é capaz de lidar com as situações, e o gatinho é inofensivo.


— Gatinhos miam fora de hora, e isso não vai diminuir a dor.


— E, não vai. Ela precisa que o pai deixe a caverna e venha ficar com ela. Mas não pretende fazer isso, não é?


A culpa dominou-o e, sem querer, olhou para a mão coberta de cicatrizes.


—  Droga, Lua, sabe que não posso fazer isso.


— Não, Arthur, eu não sei. — A exasperação era evidente na voz dela. — Só sei que está descontando a reação de algumas pessoas em mim e em Sofia. E está negando a si próprio muito amor.

Arthur passou a mão pela nuca dolorida.


— Veja! Veio até ela!


A excitação na voz de Lua atingiu-o como um golpe.


— Lua...


A voz dela soou mais baixa:


— Ande devagar, querida. O chão está escorregadio. Segure-o com cuidado, ele é um filhotinho. — Ela estava na porta dos fundos, e sua voz misturava-se ao ruído da chuva. Então Lua aproximou-se do interfone, a voz rouca de emoção:


—  Se pudesse ver o rosto dela, não questionaria nada. E prometo, vou ensiná-la a cuidar do gatinho. Será minha responsabilidade. Está bem assim, meu senhor?


Como poderia recusar, sem parecer cruel?


— E também cuidarei para que o gatinho jamais o veja. Ele olhou para o interfone com expressão séria.


— Muito engraçada. Está bem. E sua responsabilidade. Arthur desligou, mas ainda podia ouvir a voz de Lua, vinda do alto-falante junto à escrivaninha. Estava ajudando Sofia a tirar a capa e os sapatos molhados.


— É lindo! — disse Lua.


— Posso ficar com ele? — perguntou Sofia, num sussurro.


— É claro que pode. Ele precisa de uma casa.


—  Mas... o que papai vai dizer? — A voz da menina expressava medo, e Arthur não gostou nem um pouco disso. Não queria que tivesse medo dele.



...continua!...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

 

©código base por Ana .
©layout por Sabrina - Fashion Cats Designs