— Seu pai acha a ideia maravilhosa.
Mentirosa, pensou
Arthur. E embora não pudesse ver o sorriso de Sofia, pôde senti-lo,
completamente. Lua estava decidida a fazê-lo parecer um herói diante da filha.
— É um gato ou uma
gata? — sussurrou Sofia. Houve uma pausa, uma risada, e então, a resposta:
— É uma gata,
querida.
Três presenças
femininas na casa. Como um homem podia suportar aquilo? Ainda assim, encostado
no batente da janela, Arthur desejou estar com elas. Queria ver o rosto de
Sofia, segurando a gatinha. E a dor sufocou-o, mais uma vez.
— Os olhos dela
parecem os seus, Lua.
— Não acho que os
meus sejam tão verdes, ou tão lindos. — Mas eram, pensou Arthur. Cor de esmeralda
e misteriosos, como os de um felino.
— Vamos
mantê-la aquecida. Pobrezinha, está tremendo. Vamos para a sala, acender a
lareira. Só tem que mantê-la enrolada na toalha e deixar que se acostume com
você.
— Como nós vamos
chamá-la?
Nós. Ela já estava
apegada a Lua, pensou Arthur, e quando as vozes desapareceram, não conseguiu
ficar parado. Precisava ao menos ouvir o que diziam, já que não podia ver a
menina, pensou, descendo pela escada de serviço.
— ...mas nunca
soube de um gato que atendesse quando chamado pelo nome — ouviu ele, alguns
minutos depois.
— Já teve gatinhos? —
perguntou Sofia, e Arthur deslizou pela porta escondida, entrando na cozinha e
espiando. Lua acendia o fogo na lareira.
— Sim. Quando
eu era criança tínhamos pelo menos uns três, além dos cachorros e das cabras. —
Ela sorriu para a menina, fazendo o sangue de Arthur ferver nas veias. — Gado,
galinhas e montes de amendoins.
— Amendoins?
— Meu pai é
fazendeiro. Planta amendoins. — O rosto de Sofia se iluminou.
— Ele faz manteiga de
amendoim?
— Não. Ele vende a
colheita para as fábricas. — A risada de Sofia encheu o ar, e Arthur sentiu uma
estranha emoção percorrê-lo. — O que acha? — perguntou, apontando a lareira.
— Está gostoso, mas a
gatinha ainda está tremendo.
— Fale com ela com
carinho, até acostumar-se com a sua voz e perceber que não vai machucá-la.
Enxugue o pelo dela devagar, enquanto vou buscar um pouco de leite.
Sentada no canto do
sofá, Sofia olhava para Lua, com olhos muito brilhantes.
— Muito, muito
obrigada, Lua.
— Por nada, querida —
disse Lua, beijando-a, carinhosamente. Lua afastou-se, parando junto à porta
para observar a menina e a gatinha. Animais eram uma das melhores coisas que
havia para crianças que cresciam na fazenda.
Na cozinha iluminada
apenas pela luz do fogão, ela abriu a geladeira e tirou o leite, virando-se
para o armário para pegar um pires. A mão parou no ar.
— Há quanto
tempo está aqui? — perguntou, suavemente, percebendo que ele estava ali, atrás
dela, do outro lado do balcão. No silêncio, podia ouvi-lo respirar. Não tinham
ficado tão perto desde o beijo na escada e Lua estremeceu ao lembrar.
Imaginara que ficar longe dele apagaria as lembranças, mas estava enganada. O
simples fato de senti-lo tão perto deixava seu corpo em chamas.
— Tempo suficiente
para saber que é filha de um fazendeiro.
— Isso mesmo.
Sou a mais velha.
— Quantos irmãos tem?
— Cinco. Três
meninas e dois meninos. — Ela despejou leite no pires. — A diferença de idade é
pequena.
— Deve ter sido bom.
Fui o único filho.
Algumas vezes ela
desejara ser filha única, mas não muitas.
— Era barulhento,
apertado, mas não trocaria minha família por nada.
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