sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A Bela e a Fera (Capítulo 7)




         — Seu pai acha a ideia maravilhosa. 

Mentirosa, pensou Arthur. E embora não pudesse ver o sorriso de Sofia, pôde senti-lo, completamente. Lua estava decidida a fazê-lo parecer um herói diante da filha.



— É um gato ou uma gata? — sussurrou Sofia. Houve uma pausa, uma risada, e então, a resposta:


— É uma gata, querida.


Três presenças femininas na casa. Como um homem podia suportar aquilo? Ainda assim, encostado no batente da janela, Arthur desejou estar com elas. Queria ver o rosto de Sofia, segurando a gatinha. E a dor sufocou-o, mais uma vez.


—  Os olhos dela parecem os seus, Lua.


— Não acho que os meus sejam tão verdes, ou tão lindos. — Mas eram, pensou Arthur. Cor de esmeralda e misteriosos, como os de um felino.


—  Vamos mantê-la aquecida. Pobrezinha, está tremendo. Vamos para a sala, acender a lareira. Só tem que mantê-la enrolada na toalha e deixar que se acostume com você.


— Como nós vamos chamá-la?


Nós. Ela já estava apegada a Lua, pensou Arthur, e quando as vozes desapareceram, não conseguiu ficar parado. Precisava ao menos ouvir o que diziam, já que não podia ver a menina, pensou, descendo pela escada de serviço.


—  ...mas nunca soube de um gato que atendesse quando chamado pelo nome — ouviu ele, alguns minutos depois.


— Já teve gatinhos? — perguntou Sofia, e Arthur deslizou pela porta escondida, entrando na cozinha e espiando. Lua acendia o fogo na lareira.


—  Sim. Quando eu era criança tínhamos pelo menos uns três, além dos cachorros e das cabras. — Ela sorriu para a menina, fazendo o sangue de Arthur ferver nas veias. — Gado, galinhas e montes de amendoins.


— Amendoins?


— Meu pai é fazendeiro. Planta amendoins. — O rosto de Sofia se iluminou.

— Ele faz manteiga de amendoim?

— Não. Ele vende a colheita para as fábricas. — A risada de Sofia encheu o ar, e Arthur sentiu uma estranha emoção percorrê-lo. — O que acha? — perguntou, apontando a lareira.


— Está gostoso, mas a gatinha ainda está tremendo.


— Fale com ela com carinho, até acostumar-se com a sua voz e perceber que não vai machucá-la. Enxugue o pelo dela devagar, enquanto vou buscar um pouco de leite.


Sentada no canto do sofá, Sofia olhava para Lua, com olhos muito brilhantes.


— Muito, muito obrigada, Lua.


— Por nada, querida — disse Lua, beijando-a, carinhosamente. Lua afastou-se, parando junto à porta para observar a menina e a gatinha. Animais eram uma das melhores coisas que havia para crianças que cresciam na fazenda.


Na cozinha iluminada apenas pela luz do fogão, ela abriu a geladeira e tirou o leite, virando-se para o armário para pegar um pires. A mão parou no ar.


—  Há quanto tempo está aqui? — perguntou, suavemente, percebendo que ele estava ali, atrás dela, do outro lado do balcão. No silêncio, podia ouvi-lo respirar. Não tinham ficado tão perto desde o beijo na escada e Lua estremeceu ao lembrar. Imaginara que ficar longe dele apagaria as lembranças, mas estava enganada. O simples fato de senti-lo tão perto deixava seu corpo em chamas.


— Tempo suficiente para saber que é filha de um fazendeiro.


—  Isso mesmo. Sou a mais velha.


— Quantos irmãos tem?


—  Cinco. Três meninas e dois meninos. — Ela despejou leite no pires. — A diferença de idade é pequena.


— Deve ter sido bom. Fui o único filho.


Algumas vezes ela desejara ser filha única, mas não muitas.


— Era barulhento, apertado, mas não trocaria minha família por nada.


...CONTINUA!...

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