O vento batia no
casaco de Lua, e embora a chuva tivesse estiado um pouco, não havia sinal de
que o tempo iria melhorar.
— Venha conosco —
convidou Lua.
— Vão vocês
duas. Assim podem fazer um programa de mulheres.
— Por favor,
papai — pediu Sofia, sentada no banco do passageiro.
Lua colocou a mão no
braço da menina, interrompendo os pedidos. Tentava entender a apreensão de
Arthur. Fazia cerca de uma semana que vivia fora das sombras. Mas estar com
outras pessoas era um passo que Arthur ainda hesitava em dar. Por enquanto. Os
moradores da cidade não foram receptivos desde o início e, para eles, Arthur
ainda era a fera escondida no castelo. Ainda comentavam sobre ele e precisariam
de algum tempo para se acostumar.
— Está bem —
disse ela. — Não vamos demorar.
— Quero ir —
disse ele, baixinho. — Mas não com Sofia por perto. Não sei o que faria se ela
ouvisse os comentários que fazem sobre mim.
— Nem eu — concordou
Lua, com os lábios apertados. Ele segurou o queixo delicado, adorando o modo
como estava sempre pronta para defender Sofia e a ele.
— Quer dizer que não
pretende aparecer para outras pessoas, só para Sofia e para mim?
— Não posso. Ainda
não.
— Isto não pode durar
para sempre, Arthur. Haverá reuniões de pais na escola, aulas de bale,
festinhas... Vai negar a Sofia e a si mesmo uma vida normal por causa dos
outros?
— Não. Mas preciso de
tempo. Ela suspirou, tentando controlar-se.
— Está bem. Vou
tentar entender. — Ela olhou para a menina que não estava interessada nos
adultos e brincava com os botões do painel, antes de fitar Arthur novamente. —
Eu me preocupo com vocês — disse baixinho, e ele sorriu. — Quero que sejam
felizes, e esconder-se não será bom para Sofia.
— E para você?
— Também.
Arthur respirou
fundo. Sabia que isso iria acontecer. Mas não queria discutir o assunto naquele
momento.
— Podemos conversar
hoje à noite, está bem?
— Ótimo.
Arthur gostou da
determinação que viu nos olhos verdes, quando Lua ergueu o queixo, balançando o
rabo-de-cavalo. Mas não se arriscaria a fazer um papel ridículo na rua
principal. Quanto ao futuro, pensou, não podia prever o que aconteceria. Mas
tinha certeza de que ela roubara mais do que o seu coração. E queria que esse
sentimento durasse para sempre, sem interferência do mundo exterior. Tendo ao
redor apenas ela, Sofia e Micael.
— Hoje à noite — disse, inclinando-se para beijá-la. Sofia riu e Arthur
piscou para ela. A menina o aceitara, e também o relacionamento com Lua, com
toda naturalidade.
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